Colaboradores

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Um bacilo muito agressivo : Bactérias hipervirulentas da tuberculose causam morte explosiva de células de defesa e aceleram sua disseminação

© CNRI / SCIENCE PHOTO LIBRARY
Contenção temporária: bacilo da tuberculose engolfado por um macrófago (amarelo)
Contenção temporária: bacilo da tuberculose
engolfado por um macrófago (amarelo)

Um freezer com temperaturas bastante baixas, 70 graus negativos, guarda amostras congeladas do microrganismo causador de uma das doenças mais antigas de que se tem registro na humanidade, a tuberculose. Trancado em uma sala de acesso restrito na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), no município de Campos, no Rio de Janeiro, esse freezer abriga dezenas de tubos com bactérias da tuberculose coletadas em diferentes regiões do Brasil e em outros países – algumas delas classificadas como das mais agressivas em expansão em certas regiões do mundo. O acesso a essa sala do laboratório de biossegurança da Uenf é rigorosamente controlado pela imunologista russa Elena Lassounskaia. “Só seis ou sete pessoas bem treinadas têm autorização para entrar ali e trabalhar”, conta a pesquisadora, que nasceu em São Petersburgo e há 20 anos trabalha na Uenf, onde coordena os estudos sobre a agressividade da bactéria da tuberculose.

Experimentos feitos em seu laboratório, em colaboração com outras equipes de São Paulo e do Rio, começam a gerar uma nova compreensão de como as cepas mais agressivas do bacilo da tuberculose, em parte dos casos, vencem as células de defesa que deveriam controlá-lo e se espalham rapidamente pelo corpo, causando danos graves nos pulmões e em outros órgãos. Numa explicação simplificada, o que as variedades mais agressivas ou hipervirulentas da bactéria fazem é crescer mais rápido em células de defesa do pulmão e destruí-las, aumentando a liberação de compostos químicos que sinalizam para o sistema imune a ocorrência de dano celular, mostraram os pesquisadores em artigo publicado em julho na PLoS Pathogens. Em resumo, essas bactérias intensificam a liberação de sinais de perigo, exacerbando a inflamação pulmonar.

Em muitas infecções e também em inflamações causadas por pequenos danos, como uma pancada na perna, esse alerta é saudável e até desejável. Ele desperta a atenção de outras células de defesa e as encaminha para a região onde surgiu o problema. As novas células convocadas englobam e digerem a célula morta, infectada ou danificada que enviou o alerta químico, resolvendo o problema. Em caso de microrganismos mais persistentes, como as micobactérias – que incluem os bacilos da tuberculose humana (Mycobacterium tuberculosis) e bovina (M. bovis) e da hanseníase (M. leprae) –, o sistema imune tem dificuldade de eliminar completamente as bactérias e mantê-las por anos em uma área restrita, formando uma barreira de células de defesa em volta das células infectadas, o granuloma.

Com as micobactérias hipervirulentas ou em pacientes com imunodeficiência, porém, o cenário muda. Dois anos atrás um grupo liderado por Roland Brosch e Jost Enninga, do Instituto Pasteur, em Paris, demonstrou que micobactérias virulentas conseguiam romper a bolsa em que são mantidas no interior dos macrófagos, as células de defesa que detectam e englobam partículas e microrganismos estranhos ao corpo. A ruptura dessa bolsa de contenção chamada fagossomo desencadeia uma forma violenta de morte – a necrose – em que o macrófago explode e espalha o seu conteúdo pela vizinhança.

Essa morte estrondosa lança no tecido uma chuva de sinalizadores de dano celular. Eles funcionam como fogos de artifício que indicam perigo e atraem mais células de defesa para a região do dano inicial. Mas o excesso desses sinalizadores – um deles em especial, a molécula de trifosfato de adenosina (ATP) – amplia o problema: inicia um círculo vicioso de infecção e destruição de macrófagos, revelaram os pesquisadores de São Paulo e do Rio no artigo da PLoS Pathogens (ver infográfico).

“Em baixas concentrações no tecido, o ATP funciona como um ativador das células do sistema imune”, explica a imunologista Maria Regina D’Império Lima, da Universidade de São Paulo (USP), uma das coordenadoras do estudo, do qual participaram pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nessa situação, formam-se estreitos canais na membrana das células de defesa que permitem a troca de íons com o meio externo e as ativam. Já em concentrações elevadas, o ATP induz o surgimento de grandes poros que deixam sair moléculas inflamatórias, além de disparar a morte por necrose.

038-041_Tuberculose_222O biólogo Eduardo Pinheiro Amaral, aluno de doutorado de Maria Regina, comprovou que, ao matar os macrófagos por necrose, as cepas hipervirulentas de Mycobacterium conseguem escapar vivas e infectar mais macrófagos, induzindo a inflamação exacerbada do pulmão. Amaral foi um dos primeiros alunos treinados para trabalhar com micobactérias no laboratório de biossegurança nível 3 da Uenf já na iniciação científica, quando estabeleceu um modelo de infecção em camundongos para avaliar a virulência de micobactérias não tuberculosas. No mestrado, ele se concentrou em micobactérias tuberculosas mais agressivas, no laboratório de biossegurança coordenado por Mario Hirata na USP. Amaral fez uma ponte rodoviária entre São Paulo e Campos durante cerca de um ano para realizar experimentos nos dois laboratórios e avaliar uma variedade maior de bactérias isoladas de pessoas e vacas com tuberculose.

Um dos grupos de bactérias da tuberculose estudados por Amaral pertence à família genética Beijing. “Originária da China, essa família de micobactérias é bastante agressiva e vem se disseminando mais rapidamente do que outras”, conta Elena. “Essa já é a cepa predominante na Rússia e em países da antiga União Soviética e apresenta mais resistência a vários medicamentos usados no tratamento da tuberculose.” Na América Latina e na Europa mediterrânea, as cepas mais comuns são de outra família de M. tuberculosis, a Latin American-Mediterranean, em que são relativamente raros os casos de resistência às drogas.

Mesmo assim, a tuberculose no Brasil e no mundo continua um desafio de saúde pública. Calcula-se que 2 bilhões de pessoas estejam infectados com o bacilo da tuberculose, que na imensa maioria dos casos permanece em estágio dormente, do qual só desperta quando o nível de imunidade do organismo se torna baixo demais – em situações de estresse físico ou psicológico ou infecção por HIV. Uma estimativa recente, publicada em 22 de julho na Lancet, mostra que o número de pessoas com tuberculose aumentou quase 40% em pouco mais de 20 anos: subiu de 8,5 milhões em 1990 para 12 milhões em 2013, embora o número de mortes tenha baixado 12,5%, de 1,6 milhão em 2000 para 1,4 milhão em 2013. No Brasil, segundo esse estudo, houve 108 mil novos casos e quase 6 mil mortes em 2013. “A partir de 2001, o programa de controle da tuberculose implementado no país parece ter contribuído para reduzir a proporção de casos novos de 43 em cada 100 mil habitantes em 2001 para os atuais 36 por 100 mil”, conta Elena. “O controle está melhorando, mas o problema não está resolvido.”

Amaral identificou o padrão distinto de ativação dos sinais de dano do sistema imune ao trabalhar com três variedades de bactéria da tuberculose. Ele testou duas bactérias hipervirulentas: a cepa Beijing de M. tuberculosis isolada de um paciente russo e uma cepa de M. bovis encontrada em um surto da tuberculose bovina no Sul do Brasil – embora afete preferencialmente o gado, essa variedade pode causar tuberculose em humanos. As duas cepas se multiplicaram mais rapidamente nas células de defesa in vitro e nos animais infectados do que a terceira bactéria, uma cepa de M. tuberculosis usada como referência em laboratórios.
Bastaram 100 bactérias das cepas mais agressivas para iniciar uma infecção pulmonar capaz de matar. A cepa Beijing matou 90% dos roedores em oito meses, enquanto a M. bovis eliminou todos os animais em 40 dias. Os camundongos contaminados com a cepa de padrão de virulência sobreviveram até o fim do experimento. A capacidade de proliferação das bactérias mais agressivas e o nível de inflamação que causavam (atraindo mais células de defesa) foram tão elevados que deixaram os pulmões dos roedores com uma massa de três a cinco vezes superior à normal em apenas um mês. A morte dos macrófagos e o recrutamento de mais células de defesa para a área infectada destroem o tecido pulmonar e obstruem os alvéolos, causando falta de ar e tosse com eliminação de sangue.

O papel do ATP nessa inflamação exacerbada se tornou evidente quando os pesquisadores realizaram os mesmos testes com camundongos geneticamente modificados para não apresentar na superfície das células de defesa uma proteína – o receptor P2X7 – que reconhece o ATP e as coloca em ação. O grau de necrose dos macrófagos e de inflamação nos roedores sem P2X7 foi bem menor do que nos normais. “Esse resultado responde a uma questão importante sobre a resposta imunológica ao bacilo da tuberculose”, conta Maria Regina, que começou a notar a importância desse receptor na morte de macrófagos por necrose em experimentos com animais com malária.
Mycobacterium tuberculosis em secreção de paciente com tuberculose
Mycobacterium tuberculosis em secreção de  paciente com tuberculose

Além de ajudar a compreender como as bactérias mais agressivas agem, esses resultados abrem a perspectiva de que se possa intervir de modo mais eficiente no combate à tuberculose. “Se conseguirmos controlar a inflamação por meio de compostos que bloqueiem a ativação do receptor P2X7, talvez seja possível ganhar um tempo importante para o tratamento dos pacientes mais graves”, diz Eduardo. Nos testes com as cepas mais agressivas, os camundongos sem essa proteína viveram de 60 a 110 dias a mais do que os roedores normais. “O controle da inflamação com compostos que ajam no P2X7 não elimina a bactéria, mas pode diminuir lesões nos tecidos e dar mais tempo para os antibióticos agirem”, completa. Alguns compostos que atuam sobre o P2X7 estão sendo testados em animais e seres humanos. Caso seja viável, essa estratégia complementar pode ajudar a melhorar o tratamento das formas agressivas da tuberculose, que hoje dura ao menos seis meses e exige o uso de quatro antibióticos diferentes.

Na Uenf, a equipe de Elena e pesquisadores da UFRJ avaliam a ação de compostos produzidos por plantas sobre o crescimento da micobactéria e a superinflamação disparada pelas bactérias hipervirulentas de tuberculose. Hoje se usam anti-inflamatórios tradicionais nos casos em que a tuberculose atinge o sistema nervoso central. Mas esta pode não ser a melhor alternativa sempre. “Usar anti-inflamatórios com mecanismos de ação diferentes do convencional, em combinação com antibióticos”, conta Elena, “parece ser o futuro da terapia para os casos mais graves de tuberculose”.

Projeto
Papel dos inflamassomas na patogenia da tuberculose causada por isolados clínicos hipervirulentos de micobactérias (nº 13/07140-2); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Pesquisadora responsável Maria Regina D’Império Lima –  ICB/USP; Investimento R$ 288.936,14 (FAPESP).
 
Fonte: Revista Fapesp on line edição 222
Por: RICARDO ZORZETTO 

Riscos e benefícios das células-tronco

Ganhador do prêmio de Medicina em 2007, o geneticista inglês Martin Evans fala dos desafios e possibilidades 
dessa abordagem terapêutica.

de Lindau
Evans: descobridor das células-tronco embrionárias em camundongos, que permitiram modificar os genes dos animais e usá-los como modelos de doenças
Evans: descobridor das células-tronco embrionárias em camundongos, que permitiram modificar os genes dos animais e usá-los como modelos de doenças
Nascido em 1º de janeiro de 1941 em um distrito da cidade de Stroud, distante cerca de 180 quilômetros a oeste de Londres, o geneticista Martin Evans se lembra do que chama de seu primeiro experimento. Em um cenário rural marcado pela visão de prisioneiros da Segunda Guerra Mundial que lavravam os campos locais, o pequeno Martin misturou água, areia e cimento na esperança de obter um material sólido, como vira outras pessoas fazerem. Mas verteu muita água e errou a mão na receita. Meio século mais tarde, precisamente em 2007, ao lado do americano Mario R. Capecchi e do também britânico Oliver Smithies, Evans recebeu o Prêmio Nobel de Medicina por sua contribuição na formulação de uma receita de programação celular que, ao contrário da velha argamassa que desandara, deu muita liga: ele descobriu as células-tronco embrionárias em camundongos, cuja manipulação genética permitiu a criação de modelos animais – os roedores nocaute – que reproduzem as condições clínicas de doenças humanas. Essa técnica permite desligar deliberadamente um gene e, dessa forma, causar nos camundongos a mesma condição clínica, ou um distúbio similar, que atinge os humanos.

Desde 2012 no cargo honorário de chanceler da Universidade de Cardiff (País de Gales), Evans foi um dos 37 laureados com a maior honraria da ciência que participaram do 64º Encontro de Prêmio Nobel em Lindau, pequena cidade do Sul da Alemanha, às margens do lago Constança, na divisa com a Áustria e a Suíça. No evento, o geneticista deu palestras e conversou com 600 jovens cientistas de 80 países, inclusive o Brasil. Nesta entrevista, concedida em uma mesa de restaurante à beira do lago, o pesquisador fala dos possíveis impactos das pequisas com células-tronco no desenvolvimento de tratamentos para doenças. “Boa parte das terapias com células-tronco será mais parecida com uma cirurgia”, diz ele. “Teremos de analisar o risco e o benefício [desses procedimentos] para a população e para o meio ambiente.”

As pesquisas médicas com células-tronco vão gerar novos tratamentos para doenças?
Realmente acho que as células-tronco farão parte de uma importante linhagem de terapias. Acredito que as coisas deverão ser assim. Mas espero que haja um controle severo de como serão usadas. Creio que poderão gerar uma medicina bastante personalizada se conseguirmos atingir esse objetivo e os riscos serão bem menores para os pacientes. As pessoas têm medo de que ocorra algum problema com os tratamentos à base de células-tronco e o paciente acabe desenvolvendo tumores, mas não estamos falando da aplicação de uma vacina, que é um procedimento feito em grande escala, em milhares de pessoas. Se as células-tronco gerarem procedimentos personalizados, será possível rapidamente voltar atrás e tentar resolver algum eventual problema ocasionado especificamente no paciente. As pessoas terão de se perguntar se vale a pena colocar algum tipo de célula em seu organismo. Elas fariam isso por questões cosméticas? Na verdade, isso já está ocorrendo, embora eu não veja nenhuma motivação para fazer isso. Presumo que, nesses casos estéticos, algumas pessoas achem que a questão do risco e do benefício da terapia seja compensadora. Nos tratamentos com células-tronco, o ideal é que os benefícios sejam enormes e os riscos os menores possíveis.

Quando novos tratamentos com células-tronco vão se tornar disponíveis?
Alguns já estão sendo empregados, em nível experimental. Há estudos com aplicações de células na retina. As pessoas imaginam que é horrível fazer esses testes nos olhos, mas esse é um ótimo lugar porque se trata de um órgão isolado. O pior que pode acontecer é o paciente perder a visão do olho, o que já iria ocorrer de qualquer jeito, mesmo sem a aplicação. A adoção das terapias celulares será um processo lento. Minha resposta-padrão para essa pergunta, que pode não estar correta, é a seguinte: não acredito que eu ou alguém da minha geração irá se beneficiar desses novos tratamentos. Também não acho que a sua geração vai se beneficiar. Suspeito que as pessoas que estão nascendo agora têm grandes possibilidades de utilizar esses procedimentos daqui a 50 anos. Esse é o meu palpite. Mas haverá muitos exemplos distintos de tratamentos. As células-tronco serão um tipo de intervenção importante ao lado de abordagens farmacêuticas e provavelmente da terapia gênica. Espero que não haja muitos problemas com elas, como ocorreu com as pesquisas com terapia gênica, que fizeram os estudos nesse campo pararem por uma década.
O geneticista inglês em um encontro em Lindau com jovens pesquisadores: estímulo para novas gerações
O geneticista inglês em um encontro em Lindau com jovens pesquisadores: estímulo para novas gerações


Além de problemas técnicos ainda não superados, as pesquisas com células-tronco obtidas de embriões humanos enfrentam questões éticas. Como o senhor avalia essa situação?
Meu trabalho sempre foi com células embrionárias de camundongos. Há restrições nos trabalhos com animais, mas não como no caso dos humanos. Tudo de que posso falar são minhas ideias sobre as células-tronco humanas. Já estive envolvido em comitês que tratam disso. Estamos no meio de um processo em que nós e o público temos de entender onde estamos. Há pequenos progressos que estão sendo feitos nos laboratórios de pesquisa, mas as maiores decisões terão de ser tomadas quando as terapias começarem a sair dos laboratórios e puderem ser aplicadas nos pacientes. Teremos de ver se coisas que eram feitas em pequena escala, experimentalmente, podem ser consideradas éticas se aplicadas em grande escala. Teremos de analisar o risco e o benefício para a população e para o meio ambiente. É preciso levar em conta para quem serão os benefícios e para quem serão os riscos. Dessa forma, poderemos tomar decisões racionais e sensatas.

As células-tronco com pluripotência induzida (iPS) são realmente uma esperança para o desenvolvimento de novas terapias?
As coisas estão mudando rapidamente. Achávamos que os tratamentos iriam sair das células embrionárias, mas há células que virtualmente podem se comportar como as embrionárias e gerar diversos tecidos se submetidas a um tratamento químico especial. Essas células, as iPS, podem ser retiradas da pele das pessoas e há muitos métodos diferentes de produzi-las. Nesse caso, estamos falando de células que podem vir de uma fonte muito menos polêmica do que as embrionárias, ou seja, de outras células adultas. Acho que os melhores tratamentos virão de células retiradas do próprio paciente que está sendo tratado. Muitas das normas sobre uso de células-tronco que estamos usando são uma evolução da regulação do setor de fármacos, mas essas duas áreas não são exatamente iguais. No caso das drogas, é preciso fazer muitos testes clínicos, pois esse é um tipo de tratamento que, se for aprovado, será prescrito para milhões de pessoas. No caso dos tratamentos com células-tronco, boa parte das terapias será mais parecida com uma cirurgia. Volto ao exemplo dos experimentos em que células-tronco são usadas para tentar tratar alguns tipos de cegueira. Embora estejamos usando células-tronco, estamos falando de um tipo de operação feita nos olhos. O procedimento envolve riscos e benefícios pessoais. O paciente pode achar que vale a pena se submeter ao procedimento se souber que corre o risco de perder a visão se não realizar tal cirurgia. A decisão de aprovar a operação só vai afetar uma pessoa, e ninguém mais.

O senhor está convencido de que as iPS são realmente muito similares às células embrionárias?
Devemos ver as coisas sob dois aspectos. Primeiramente, diria que elas são muito similares. Em segundo lugar, nem todas as células-tronco embrionárias são boas. O mesmo ocorre com as iPS. Há, no momento, ao menos 12 procedimentos diferentes para obter iPS, todos baseados nas observações iniciais do professor Shinya Yamanaka [da Universidade de Kyoto, ganhador do Nobel de Medicina de 2012, por ter conseguido reprogramar células adultas para se comportarem como se fossem células embrionárias e, assim, voltarem a ser pluripotentes]. Segundo Yamanaka, para fibroblastos [células da pele] se tornarem iPS era necessário introduzir quatro diferentes fatores de transcrição [na verdade, inserir quatro genes que produzem proteínas denominadas fatores de transcrição, que regulam o funcionamento de outros genes nas células]. Agora há pessoas que conseguem fazer isso com três fatores e quem obtenha esse resultado dando proteínas ou RNA às células adultas. A reprogramação celular demanda tempo. Obviamente há múltiplos processos ocorrendo dentro das células e precisamos entendê-los. Mas essa reprogramação de uma célula adulta para uma iPS similar a uma célula embrionária é a mais dramática reversão em termos de desenvolvimento e diferenciação celular. É voltar totalmente para trás. Como o próprio professor Yamanaka lhe diria, ele só conseguiu fazer isso porque já sabia como deveria cultivar células embrionárias, quais condições elas necessitavam e como eram. Para mim, está claro que estamos entrando em uma nova era na qual teremos conhecimento e habilidade técnica para transformar um tipo de célula em outra. Dessa maneira, os pesquisadores estão fazendo células nervosas, músculos, e a biologia celular está realmente progredindo.

Nos últimos anos, alguns artigos científicos que descreviam supostos importantes avanços nas pesquisas com células-tronco foram considerados errados ou fraudulentos e sua publicação foi cancelada. Como o senhor vê essa questão?
Na minha área, houve cinco ou seis episódios dramáticos desse tipo e eu me pergunto se eles são casos especiais. Sabemos que há questões éticas e interesses envolvidos nesses episódios. Houve aquele famoso caso do sul-coreano [Hwang Woo-suk, que publicou dois artigos fraudulentos na Science, em 2004 e 2005]. Falando desse caso mais recente [um artigo de janeiro escrito por uma equipe japonesa do Riken Center for Developmental Biology, publicado na Nature], os resultados pareciam muito improváveis. Fiquei surpreso de a revista ter publicado o trabalho sem ter pensado muito no assunto.

As revistas científicas precisam ser mais cuidadosas ao aceitar trabalhos para publicação?
Devo responder que sim e não. Se forem altamente seletivas sobre o que acham que está certo, as revistas, na verdade, não estão fazendo seu trabalho. Os editores não devem se colocar nessa posição. Mas, sim, seus revisores, que devem discutir a probabilidade de os trabalhos submetidos estarem corretos. Nesse trabalho do centro Riken, havia claramente ilustrações que não mostravam o que elas diziam que mostravam. Não estamos em uma posição de dizer se foi uma fraude deliberada ou se se tratou de uma interpretação excessivamente otimista das imagens. Certamente, o trabalho estava errado. Mas não sabemos como e por quê. Tendo a achar que foi uma interpretação demasiadamente otimista. Mas, vamos colocar as coisas assim, o processo de edição do trabalho certamente pode ser alvo de questionamentos.

Qual foi o impacto da criação dos camundongos nocaute que se tornaram modelos animais para o estudo de doenças?
Hoje há a exigência de se fazer um camundongo nocaute para muitas doenças. Os pesquisadores até reclamam disso. Mas é preciso fazer. Mostrei um slide em minha palestra em que, segundo uma previsão, o mercado de camundongos nocaute vai movimentar US$ 1,8 bilhão em 2018. O que isso significa? Não sei dizer. Estimamos que mais ou menos metade dos genes já foi nocauteada. Hoje há até quem esteja fazendo o caminho inverso que tínhamos que fazer no passado. Antes encontrávamos um fenótipo em um experimento com animais ou em um paciente e tínhamos que procurar a mutação que era sua causa. Hoje pode-se forçar as mutações a apresentarem um fenótipo. Assim, pode-se reconhecê-las.

Que tipo de pesquisa o senhor faz agora?
Nada. Estou aposentado. Falo um pouco com colegas mais novos, mas não faço nenhum trabalho de laboratório. Escrevo alguns artigos e estou também envolvido com uma empresa que faz tratamentos com células-tronco. Mas não faço muita coisa.

O que mudou em sua vida, do ponto de vista pessoal e profissional, depois do Nobel?
Quando recebi o Nobel, estava me aposentando da Universidade de Cardiff. Mas eles quiseram me manter e me deram um cargo honorário. Nos últimos anos, tenho sido chanceler da universidade. Ganhar um Nobel significa que você será inundado com convites. É muito difícil lidar com isso. Tenho sido muito feliz e sempre tive apoio da universidade, me deram uma assistente pessoal que é muito útil.

Essa é sua segunda participação em Lindau. Por que aceitou novamente o convite?
Depois do Nobel, me disseram que eu iria ser convidado para vir aqui. Lindau tem uma ótima atmosfera, é um lugar bonito, e o evento é muito bem organizado. É ótimo encontrar outros Nobel e adoro a multidisciplinaridade das conversas. E, é claro, há os encontros com os jovens estudantes. Em toda minha vida, parte das minhas atividades sempre foi interagir e encorajar os mais jovens. Gosto muito de fazer isso.

As novas gerações estão interessadas em ciência?
Sim, acho que há muita gente interessada em pesquisa. Mas há problemas na forma como a ciência é ensinada nas escolas. A ciência é um disciplina intelectual. É uma atividade similar à dos poetas e dos artistas. Não acho que devemos estar interessados em apenas uma coisa. Certamente não pensaria a ciência apenas como a base para possíveis aplicações tecnológicas. Esse aspecto é bom. Todos nos beneficiamos de avanços técnicos na medicina e em outros campos. Uma carreira na medicina, e eu sei disso porque tenho amigos na área, pode ser muito recompensadora. Mas os melhores clínicos que conheço são aqueles que pensam sobre a profissão.

* Marcos Pivetta viajou à Alemanha a convite do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (Daad) 
Fonte: Revista Fapesp edição 222

Nova curva de crescimento avalia bebês ainda no útero

Padrão internacional pode ajudar a detectar problemas de nutrição durante o desenvolvimento fetal

Toda mãe sabe da importância de curvas de crescimento para avaliar o desenvolvimento do feto e do bebê. Mas até agora não havia uma curva validada para crescimento fetal. Isso muda com a publicação de dois artigos na revista The Lancet de 6 de setembro. Um dos artigos propõe um padrão internacional para o desenvolvimento dos bebês durante a gestação. Outro apresenta um intervalo de valores considerados adequados para um recém-nascido saudável. De acordo com coordenador do trabalho, o argentino José Villar, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, o novo padrão indica que ao menos 30 milhões de bebês já nascem subnutridos a cada ano. Quanto mais cedo o problema for detectado, mais tempo se tem para tentar corrigir a alimentação e evitar sequelas que podem chegar à idade adulta.
Tamanho do feto pode ser comparado ao padrão desde o início da gestação
Tamanho do feto pode ser comparado ao padrão desde o início da gestação
As curvas de crescimento propostas agora foram desenvolvidas pelo Consórcio Internacional sobre Crescimento Fetal e de Recém-nascidos para o Século XXI (Intergrowth-21st) reuniu mais de 300 pesquisadores de 27 instituições. Ao longo de 5 anos, foram medidos o comprimento, o peso e a circunferência da cabeça de quase 60 mil bebês nascidos em áreas urbanas do Brasil, da China, da Índia, da Itália, do Quênia, de Omã, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Com esses dados, os pesquisadores propuseram uma faixa de valores esperados para um bebê que se desenvolveu sem privação de nutrientes apresentar nos primeiros minutos após o nascimento. O projeto também monitorou o crescimento de quase 4.500 desses bebês do início ao fim da gestação, por meio de medições semelhantes feitas em ultrassonografias, e criou curvas que mostram o crescimento esperado do feto no interior do útero . “A impressão é que vai aumentar a proporção de recém-nascidos no mundo que vai ser considerada com crescimento intrauterino deficiente”, prevê o pediatra Fernando Barros, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que integra o consórcio junto com o colega César Victora.

Uma mudança importante introduzida pelo consórcio é a constatação de que os fetos seguem a mesma curva de crescimento nas diferentes populações estudadas, independentemente da estatura média dos adultos, conforme mostra artigo publicado em julho pelo mesmo grupo na Lancet Diabetes & Endocrinology. Barros prevê que o resultado causará discussão, já que muitos médicos preconizam a adoção de curvas adaptadas à realidade de cada população.

O problema é que, em populações nas quais deficiências alimentares são frequentes, o uso de uma curva local pode mascarar a subnutrição em fetos. Para contornar essa dificuldade, o Intergrowth-21st adotou como padrão gestantes em boa saúde e com bom padrão socioeconômico. “O estudo mostra que, se pegamos mulheres com as mesmas condições, o bebê vai crescer igual. Se esse padrão de crescimento vai continuar vida afora é outra coisa, uma vez que o ambiente exercerá sua influência por meio de fatores como infecções e alimentação”, explica o pesquisador gaúcho.

No Brasil, a cada ano nascem cerca de 3 milhões de bebês. De agora em diante os médicos têm uma boa ferramenta para avaliar a necessidade de cuidados adicionais para que essas crianças se desenvolvam da melhor maneira possível.

 
Fonte: Revista Fapesp on line edição setembro de 2014
MARIA GUIMARÃES e RICARDO ZORZETTO

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Parabéns Felipe Candido pelo certificado de mérito acadêmico!!!!

Olá pessoal! 
Sou aluno de Biomedicina da Universidade Metodista de São Paulo e estou em um programa de Mobilidade Acadêmica, o Ciência sem Fronteiras, desde Agosto do ano passado. Estou estudando em Michigan, nos EUA. Aqui curso matérias do curso de Biomedical Sciences e de departamentos variados que coincidem com a minha grade da Universidade Metodista. Os semestres aqui são divididos pelas estações do ano. Então temos o Spring que vai de Janeiro a Abril, o Summer que vai de Maio a Agosto e o Fall que vai de Setembro a Dezembro. 
Durante o período do Spring eu recebi esse certificado de mérito acadêmico chamado de Dean's List. Ele reconhece todos os alunos que tiveram um GPA (uma média de notas que vai de 0 ate 4) acima de 3.5. 
Durante o Spring, meu GPA foi de 3.63 o que garantiu o diploma. Fiquei muito feliz com o reconhecimento e a premiação. Foram horas intermináveis de estudo e dedicação, mas que valeram a pena. Durante o Summer eu realizei um estágio no Centro de Pesquisas em Virologia do estado de Nebraska e agora estou de volta à Michigan cursando as matérias do Fall semester. Retorno ao Brasil em Dezembro e com certeza, com uma bagagem cultural e intelectual impagável! Agradeço à Profa Thalma por sempre lembrar de mim e de todos os alunos em intercâmbio e a todos os professores e  ao coordenador Prof. Isaltino pelo apoio constante.



domingo, 31 de agosto de 2014

Amor pela Biomedicina Metodista!

Parabéns alunos e professores pelo excelente trabalho realizado na Feira de Profissões do Guia do Estudante
#Orgulho de ser #BiomedicinaMetodista!

"O segredo de um grande sucesso esta no trabalho 
de uma grande equipe" Murillo Cintra













quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Enzima altera sensibilidade à dor

Descoberta pode dar origem a medicamento que não causa dependência

© B. SMALL/ UNIVERSIDADE STANFORD
Alteração em gene da enzima ALDH2 aumentou a sensibilidade de camundongos a episódios de dor
Alteração em gene da enzima ALDH2 aumentou a sensibilidade de camundongos a episódios de dor
A ativação de uma enzima conhecida como aldeído desidrogenase-2 (ALDH2), essencial para o metabolismo do álcool, pode também determinar o quanto somos sensíveis à dor, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira, 27, na capa da revista Science Translational Medicine. Nele, um grupo internacional de pesquisadores, coordenados pela biomédica Vanessa Zambelli, do Laboratório Especial de Dor e Sinalização (LEDS) do Instituto Butantan, desenvolveu um modelo animal no qual foi induzido em camundongos uma mutação específica no gene dessa enzima, responsável por eliminar do corpo os chamados aldeídos circulantes — moléculas tóxicas produzidas pelas células sob estresse que podem danificar algumas proteínas e até causar câncer.
Há muito se sabe que os portadores dessa mutação são mais suscetíveis aos efeitos do álcool, que ao ser metabolizado libera grandes quantidades de aldeídos. Em estudos recentes, pesquisadores verificaram que a ALDH2 é pouco eficaz em parte dos orientais. Estima-se que 36% da população do leste da Ásia tenha essa mutação, apresentando, como consequência, baixa tolerância ao álcool. Basta uma cerveja, por exemplo, para essas pessoas ficarem com o rosto vermelho. Estudos recentes também verificaram que os orientais do leste asiático são menos tolerantes à dor: pelo que se sabe agora, não é uma mera coincidência.
Foi essa mesma mutação que Vanessa e colaboradores induziram em um grupo de camundongos, reduzindo em 60% a atividade da ALDH2. Em seguida, eles injetaram uma substância que causava inflamação e verificaram que estes camundongos, comparados aos do grupo controle, eram mais sensíveis à dor causada pela inflamação. Logo depois trataram os mesmos camundongos com a molécula Alda-1, capaz de reestabelecer a atividade da ALDH2. Os pesquisadores constataram que a sensibilidade dos camundongos à dor voltou a diminuir.
De acordo com Vanessa, a Alda-1 mostrou ter um importante potencial farmacológico para controle da dor porque, diferentemente da maioria dos anti-inflamatórios, não apresenta risco cardiovascular. Essa molécula foi identificada por um grupo de pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos — ao qual a pesquisadora se juntou em seu pós-doutorado — em colaboração com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e demonstrou, em ensaios pré-clínicos, potencial para o tratamento da insuficiência cardíaca, entre outras doenças.
Em um estudo publicado em 2011 na mesma Science Translational Medicine, o grupo de Stanford demonstrou um benefício adicional: ao ativar a enzima ALDH2 nas células cardíacas, a Alda-1 protegia o coração após um infarto. “Apesar de muito ainda precisar ser feito, os resultados sugerem que a ativação da ALHD2 com a Alda-1 pode reduzir a dor sem causar efeitos adversos ou dependência”, explica Vanessa. Essa é a diferença em relação às principais drogas hoje usadas para diminuir a dor, como a morfina.
Projetos
1. Papel da aldeído desidrogenase 2 e do 4-hidroxinonenal na dor (nº 2012/05035-4);Modalidade Auxílio Pesquisa – Regular; Pesquisadora responsável Yara Cury (Instituto Butantan); Investimento R$ R$ 155.669,93 (FAPESP).
2. Papel da aldeído desidrogenase 2 e do 4-hidroxinonenal na dor (nº 2011/08873-8); Modalidade Bolsa no País – Regular – Pós-Doutorado; Pesquisadora responsável Yara Cury (Instituto Butantan); Bolsista Vanessa Olzon Zambelli (Instituto Butantan); Investimento R$ 113.364,88 (FAPESP).

Artigo científico
ZAMBELLI, V. O. et al. Aldehyde dehydrogenase-2 regulates nociception in  rodent models of acute inflammatory pain. Science Translational Medicine. v. 6, n. 251, p. 1-11. ago. 2014.

Fonte: Revista Fapesp on line -  agosto 2014
Rodrigo de Oliveira Andrade

domingo, 24 de agosto de 2014

O caminho de pedras das doenças raras

Mapeamento mostra distribuição de distúrbios genéticos no país
© EDUARDO CESAR
A via-sacra de Monte Santo: local de peregrinação que recebe milhares de pessoas todo ano
A via-sacra de Monte Santo: local de peregrinação que recebe milhares de pessoas todo ano De Monte Santo, BA

José de Andrade Pereira é um homem de fibra. Em 2004, ele levou o filho mais velho, que aos três anos era muito baixo, tinha dedos curtos, cabeça grande e dificuldade de fala – e mais uma vez estava com forte dor de ouvido –, a um posto de saúde de Monte Santo, interior da Bahia. O médico lhe disse que, além de cuidar da dor de ouvido, não poderia fazer mais nada diante de uma doença que não conhecia e que ele deveria apenas esperar o menino morrer. Pereira reagiu: “Esperar é o que não vou fazer, nunca!”. Ele fez a viagem de seis horas até Salvador e perguntou a um porteiro do Hospital Universitário Professor Edgard Santos quem ele deveria procurar para tratar de um menino como aquele. Os médicos examinaram o menino e depois o irmão de 11 meses, na viagem seguinte, e concluíram que os dois tinham mucopolissacaridose tipo 6, uma doença rara de origem genética então sem tratamento. Pereira alertou: “Tem outras crianças assim por lá”. Sua visão de mundo mudou a história desta cidade do sertão baiano.
Monte Santo foi um acampamento para as tropas do governo que lutaram na guerra de Canudos. A praça principal exibe uma escultura em madeira de Antonio Conselheiro, o beato que liderou os sertanejos vistos como opositores da república nascente. Apontada para a escultura há uma matadeira, canhão usado nas batalhas em que morreram 25 mil revoltosos e 5 mil soldados. Nos últimos anos Monte Santo tem sido o palco de outras batalhas: a identificação, o tratamento e a prevenção de doenças genéticas raras, que começaram a ser reconhecidas a partir da indicação de Pereira. Antes as crianças com doenças como a mucopolissacaridose permaneciam em suas casas. Seus pais achavam que nada mais poderia ser feito.

© EDUARDO CESAR
Os ex-votos da capela no final da trilha de pedra
Os ex-votos da capela no final da trilha de pedra

Médicos e pesquisadores de Salvador, Rio de Janeiro e Porto Alegre foram a Monte Santo pela primeira vez em 2006 e se espantaram com a diversidade de doenças raras que viam em um só lugar. Já diagnosticaram 13 pessoas com mucopolissacaridose tipo 6, uma proporção 240 vezes maior do que a média nacional, 84 com deficiência auditiva de possível origem genética, 12 com hipotireoidismo congênito, nove com fenilcetonúria, que pode causar deficiência intelectual se não tratada, quatro com osteogênese imperfeita, marcada pela extrema fragilidade dos ossos, e quatro com síndrome de Treacher Collins, que prejudica a formação dos ossos do crânio.
Acredita-se que os casamentos entre parentes, antes muito frequentes, possam ter favorecido o surgimento de doenças físicas e mentais de origem genética. Muitas pessoas se casavam sem saber que tinham ascendentes próximos em comum. José Pereira e sua esposa, Júlia Isaura dos Santos Pereira, souberam que eram parentes só há poucos anos, ao reconstituírem a genealogia da família com os pesquisadores de Salvador, e enfim entenderam por que tinham ouvido falar de tios com a mesma doença dos dois filhos mais velhos. Talvez as raízes mais profundas desses problemas estejam na própria história do lugar. Vários relatos do historiador baiano José Calasans indicam que o município hoje com 52 mil moradores – espalhados em 47 povoados ao redor do núcleo urbano – foi um centro de convergência de pessoas doentes em busca dos milagres do Conselheiro, que reforçou a fama religiosa do lugar. Foi ele quem reformou as capelas ao longo da via-sacra, um caminho íngreme e sinuoso de pedras, com 2,8 quilômetros (km) de extensão, que termina em uma capela erguida no alto do morro em 1786 por um padre italiano. Todo ano, milhares de romeiros sobem o caminho de pedras, às vezes de joelhos ou com uma pedra na cabeça, para pagar promessas. Por serem geralmente pobres, os doentes, curados ou não, seus familiares e romeiros podem ter tido dificuldade para voltar para suas terras de origem ou preferido ficar na região.

© EDUARDO CESAR
Monte Santo ao anoitecer: palco de batalhas históricas
Monte Santo ao anoitecer: palco de batalhas históricas

Como deve haver mais pessoas ainda não diagnosticadas, a médica geneticista Angelina Acosta, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), subiu ao auditório da Câmara de Vereadores no início da tarde do dia 10 de julho e expôs a médicos e políticos seu plano de fazer um censo da saúde de toda a população. “Somos de universidades, mas trabalhamos com vocês todos, para que nosso trabalho tenha uma aplicação prática”, ela afirmou. A secretária municipal da Saúde, Itácia Macedo de Andrade Silva, acompanhava tudo com atenção. “Quero fazer algo pela minha terra”, disse ela, explicando por que voltou à cidade depois de estudar enfermagem em Salvador. Na manhã seguinte, a equipe coordenada por Angelina e por Kiyoko Sandes conversou com 80 agentes comunitários da saúde que vão visitar os povoados em busca de outros casos, a partir deste mês. O diálogo resultou em indicações de pessoas que ainda não haviam sido examinadas e na formação de um comitê para acompanhar o censo e o tratamento. José Pereira era um dos integrantes.
As doenças raras formam um mundo de sofrimento, solidão, fantasias e culpa, que começa a ser examinado publicamente. “O Sistema Único de Saúde [SUS] reconheceu que as doenças raras devem ser tratadas”, comenta Clarice Alegre Petramale, diretora do departamento de gestão e incorporação de tecnologias do Ministério da Saúde. A política nacional de atendimento médico às pessoas com doenças raras – definidas como qualquer enfermidade apresentada por até 13 pessoas em cada grupo de 20 mil indivíduos – está em vigor desde maio deste ano. Os grupos de doenças prioritárias para atendimento devem ser anunciados até o fim deste ano.
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Para a maioria das doenças raras não há medicamentos específicos, apenas tratamento de apoio, como fisioterapia e fonoaudiologia. Quando existe medicação, é geralmente importada e obtida por meio de decisões judiciais. “Os remédios são caros e muitas vezes de eficácia incerta, porque não passaram por todos os testes rigorosos de avaliação, já que foram testados em um número muito pequeno de pacientes”, diz Magda Carneiro-Sampaio, diretora do Instituto da Criança da Universidade de São Paulo (USP). “E os medicamentos podem ser indicados já em estágios avançados das doenças, quando não funcionam tão bem. É uma situação mal equacionada, mas não é só no Brasil.” Maíra Catharina Ramos, da Universidade de Brasília, calculou que a compra voluntária pelo governo de apenas um medicamento usado para tratar mucopolissacaridose implicaria uma economia de R$ 50 milhões, em relação ao que é gasto para atender as decisões judiciais, que obrigam o governo a comprar os remédios. Estima-se que 13 milhões de pessoas no país tenham alguma doença rara, das quais, em todo o mundo, já foram descritos 6 mil tipos, a maioria de origem genética.

De norte a sul
O trabalho dos pesquisadores acadêmicos com os profissionais da saúde locais em busca de outros moradores com doenças incomuns coloca Monte Santo na linha de frente do Censo Nacional de Isolados (Ceniso), organizado pelo Instituto Nacional de Genética Médica e Populacional (Inagemp). Em abril de 2014, um artigo publicado na revista Genetics and Molecular Biology apresentou um dos resultados do Ceniso: um levantamento nacional dos municípios com grupos de pessoas ou famílias com doenças genéticas. Uma versão atualizada desse mapeamento, apresentada na página anterior, reúne 81 municípios, onde vivem 4.136 pessoas com características genéticas específicas, os chamados isolados genéticos. Nem sempre são doenças. O município gaúcho de Cândido Godói, por exemplo, apresenta um número extraordinário de gêmeos. A equipe da médica geneticista Lavínia Schuler Faccini, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do comitê coordenador do Inagemp, identificou 91 gêmeos duplos e um triplo nascidos entre 1959 e 2000 no município, hoje com 6 mil moradores. Entre 1994 e 2006, 2% das crianças nascidas em Cândido Godói eram gêmeas, o dobro da média nacional. Em um dos distritos a taxa de gêmeos chegou a 10%.
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Algumas doenças genéticas se manifestam na idade adulta, mesmo depois dos 40 anos de idade, como a ataxia de Machado-Joseph, que causa a perda progressiva do equilíbrio, dos movimentos e da fala. Lavínia, com sua equipe, que faz o aconselhamento genético dos familiares de quase 400 pessoas com ataxia em Porto Alegre, tem observado que o diagnóstico em geral tardio costuma gerar angústia e culpa, porque as pessoas já podem ter tido filhos ou netos com as mutações causadoras da doença.
Há doenças de alcance regional, como a síndrome de Li-Fraumeni, uma forma genética hereditária de predisposição ao câncer, já identificada em 325 pessoas dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Um estudo recente registrou uma prevalência alta, de 0,27%, da mutação causadora da doença em 171 mil bebês de Curitiba examinados, indicando que essa doença, em alguns lugares, não é rara e necessitaria de um acompanhamento intensivo, principalmente com as pessoas de risco mais alto.

© EDUARDO CESAR
Primas com fenilcetonúria controlada: Raíra Anielli Carvalho Silva, entre a mãe, Eliana Batista Carvalho, e o irmão,  Ranieri Carvalho Silva (esquerda), e o avô de 92 anos, José Lopes de Carvalho, e o pai, José Nildo Andrade Silva
Primas com fenilcetonúria controlada: Raíra Anielli Carvalho Silva, entre a mãe, Eliana Batista Carvalho, e o irmão, Ranieri Carvalho Silva (esquerda), e o avô de 92 anos, José Lopes de Carvalho, e o pai, José Nildo Andrade Silva

O médico Eduardo Enrique Castilla, pesquisador da Fiocruz do Rio de Janeiro e um dos idealizadores do censo, acredita que o total de municípios já identificados com doenças genéticas raras no Brasil deve representar apenas 20% do previsto. A lista não para de crescer porque os pesquisadores continuam encontrando indicações de outros lugares ainda não mapeados. Em junho deste ano, o geneticista Carlos Menck, da USP, foi a Miracatu, cidade de 30 mil habitantes a 130 km de São Paulo, e identificou quatro pessoas de uma mesma família com xeroderma pigmentoso, já diagnosticada em 22 dos moradores de um povoado no interior de Goiás. Embora a doença seja a mesma, as mutações que a causam, os genes e os cromossomos atingidos são diferentes nas pessoas dos dois estados.
Desde 2013, a equipe da médica geneticista Denise Cavalcanti, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), identificou novos clusters, outro nome para os isolados genéticos, de diferentes displasias esqueléticas, doenças que prejudicam o crescimento dos ossos. Os clusters estão em cinco municípios dos estados do Ceará, Alagoas, Pernambuco e São Paulo. Um deles, identificado em colaboração com uma médica geneticista de Fortaleza, impressiona pelo número de pessoas diagnosticadas até agora – 27, de 22 famílias. Dispersas em pelo menos 10 cidades pequenas do interior do Ceará, elas têm uma doença bastante rara chamada picnodisostose, a mesma que determinou a baixa estatura do artista francês Henri de Toulouse-Lautrec. Denise, com seu grupo, trabalha agora para identificar o possível local de origem da mutação que causa a doença, o chamado efeito fundador, no Ceará.

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Camilly Vitória de Souza Andrade, entre o pai, José Armando Moraes de Andrade, e a mãe, Cremilda Maria de Souza Andrade
Camilly Vitória de Souza Andrade, entre o pai, José Armando Moraes de Andrade, e a mãe, Cremilda Maria de Souza Andrade

“Você não imagina como é importante para as mães saber o nome da doença dos filhos, mesmo que não exista tratamento, porque aí param de andar de um médico para outro”, diz Denise. Um dia ela recebeu uma carta de uma mulher de Belém que agradeceu pelo diagnóstico de um filho e comentou: “Era angustiante não termos um diagnóstico, era como andar no escuro ou sem rumo”. Quando conhecem o nome das doenças, as mães “voltam a apostar nos filhos”, observa Isabella Queiroz, professora da Escola Bahiana de Medicina e psicóloga da Apae de Salvador que atende as famílias com doenças genéticas de Monte Santo. “Já fizemos mais de 200 sessões de aconselhamento genético.” Nesses encontros, a equipe médica explica que as doenças genéticas hereditárias resultam da transmissão de genes com alterações (ou mutações), porque apenas o casamento entre parentes não é a única explicação. Ao ver um mapa genético da família relacionando as pessoas saudáveis e doentes, uma mulher entendeu a seu modo o que acontecia: “Juntou uma manchinha minha com outra de meu marido e nasceu prejudicado, é isso?”. É também quando transbordam a culpa por ter tido filhos doentes, o desamparo e a raiva. Um dos homens questionou quem o atendia: “Não posso mais ter filhos? Então estou condenado?”. A equipe de aconselhamento genético sabe que deve expor os riscos de doenças hereditárias sem intervir sobre a escolha dos casais de terem filhos.
Às vezes, casais mais jovens, antes de ter filhos, procuram voluntariamente o serviço médico para detectar eventuais mutações prejudiciais, indicando que o número de casos de algumas doenças genéticas pode cair nos próximos anos. O hábito de casar com primos – muito mais frequente nos países muçulmanos do que no Brasil – é que talvez seja mais difícil de mudar, porque tem sido adotado há muito tempo, como forma de manter as terras em família ou por preferências pessoais. Quando visitaram Tabuleiro do Norte, município a 200 km de Fortaleza com alta prevalência de uma doença metabólica conhecida como síndrome de Gaucher, os pesquisadores ouviram os homens dizerem que as mulheres da capital eram boas para namorar e as de Tabuleiro, boas para casar. Permanecer atrelado ao próprio lugar é que poderia, portanto, causar o índice elevado de doenças genéticas. Um padre de Monte Santo, conta-se, ofereceu bicicletas para os rapazes buscarem noivas em outros lugares, mas ninguém aceitou.

© EDUARDO CESAR
Livro de casamentos da paróquia de Monte Santo em 1938: no caso de primos, o vigário tinha de dar “dispensa de impedimento”
Livro de casamentos da paróquia de Monte Santo em 1938: no caso de primos, o vigário tinha de dar “dispensa de impedimento”
“Muita coisa mudou”, observa Maria Olívia Sousa Costa, secretária da Saúde de Monte Santo de 2008 a 2011. “Os médicos se tornaram responsáveis pela identificação de doenças raras, e as mães ganharam consciência de seus direitos à saúde e reclamavam quando faltava infusão.” Infusão é um preparado com a enzima arilsulfatase B, que as crianças com mucopolissacaridose tipo 6 não produzem e é aplicada em sessões de quatro horas, uma vez por semana. Durante anos os pais levavam as crianças a Salvador para receberem a medicação, desde 2011 aplicada em um anexo do hospital da cidade. Nem tudo mudou, porém, porque nem sempre há medicação. “Tem de cobrar sempre, mas não me acanho, não”, diz Pereira. Seus dois filhos começaram a ser tratados em 2008 em Salvador, quatro anos depois do diagnóstico, já que a enzima não tinha sido ainda liberada para uso no Brasil. A doença não pôde ser revertida. Hoje Jorge tem 17 anos e seu irmão Sidney, 14, ambos com menos de um metro de altura e com dificultades de movimento. Vitor Gonzaga Andrade, filho de Alaíde Gonzaga Andrade, prima de Pereira, começou a receber a medicação aos dois anos e hoje, aos seis, corre como um menino saudável.
Cremilda Maria de Souza Andrade se sentiu desarvorada ao saber que a filha Camilly tinha fenilcetonúria, diagnosticada um mês depois de nascer. Foi para Salvador e começou o tratamento, que consiste em uma dieta rigorosa, sem nenhuma proteína que contenha fenilalanina, que o organismo não consegue processar. “Hoje estou feliz”, diz Cremilda, mostrando com orgulho os cadernos da filha, agora com 11 anos e sempre atenta à dieta. Camilly é prima de Raíra Anielli Carvalho Silva, de 12 anos, que também tem fenilcetonúria, detectada logo após nascer e controlada por meio da alimentação. No mesmo povoado de Raíra, porém, moram dois irmãos, hoje com 40 e 27 anos e a mesma mutação das meninas. Como o teste do pezinho ainda não era comum na região quando eles nasceram, a doença deles foi detectada muito depois, não foi controlada e causou os distúrbios mentais que os impedem de sair de casa.

Pé na estrada
Para fazer um trabalho abrangente, os pesquisadores têm de sair do laboratório, colocar uma roupa de estrada, viajar para lugares inimagináveis, conhecer os hábitos e os silêncios dos moradores do interior do país e buscar informações em outros espaços. Para localizar pessoas com maior risco de doenças genéticas, Angelina Acosta e sua equipe consultaram os livros de casamentos, batizados e mortes na paróquia de Monte Santo desde 1831, e refizeram a história de 1.419 famílias. Depois de se perderem, encontraram o caminho das pedras, valioso até mesmo para os historiadores, ao verem que as mulheres ganhavam sobrenome apenas depois de casadas, os casais registravam as filhas com o sobrenome da mãe e o filho com o sobrenome do pai, além de apelidos usados como nomes – um homem conhecido como Santana na verdade chamava José da Silva. Em Monte Santo, nomes e sobrenomes se repetiam em um labirinto como o da família Buendía em Cem anos de solidão, cujos integrantes viviam casando entre si e depois temiam ter filhos com rabo de porco.
A publicação de artigos científicos ainda é importante, mas não é a prioridade, porque há “uma obrigação moral” de relatar as descobertas primeiramente às comunidades estudadas, enfatiza Castilla. Em uma manhã de sábado, Lavínia e sua equipe se puseram à frente de 200 pessoas no salão de festas da igreja de Cândido Godói para explicar o motivo do número elevado de gêmeos, muitos deles na plateia: era uma provável consequência de uma variação do gene da proteína p53, que poderia favorecer o desenvolvimento de dois embriões por gestação. Durante décadas se acreditou que os gêmeos eram um efeito da água supostamente especial do município.

Artigos científicos
CASTILLA, E. E. & SCHULER-FACCINI, L. From rumors to genetic isolates. Genetics and Molecular Biology. v. 1, n. 37, p. 186-93. 2014.
TAGLIANI-RIBEIRO A. et al. High twinning rate in Cândido Godói: a new role for p53 in human fertility. Human Reproduction. v. 27, n. 9, p. 2866-71. 2012.
MACHADO, T. M. B. et al. Types of marriages, population structure and genetic disease. Journal of Biosocial Science. v. 45, n. 4, p. 461-70. 2013. 

Fonte: Revista Fapesp on line edição 222 2014
Por: CARLOS FIORAVANTI

domingo, 17 de agosto de 2014

Oração do Biomédico

Senhor, coloco-me diante de Ti em missão de serviço.
Dai-me, Senhor, sabedoria necessária para que eu possa conhecer a Tua obra maravilhosa, o corpo humano e suas funções perfeitas.
Ilumine minha mente e me dê condições para que eu realize com precisão o diagnóstico, revelando toda e qualquer alteração que auxilie na resolução dos problemas de saúde de meus semelhantes.
Que eu seja meticuloso e paciente.
Torna-me incansável diante das incógnitas que se me apresentarem.
Faça-me instrumento Teu.
Eu quero mitigar a dor, conservar e ajudar a restabelecer a graça da saúde, preservando assim o milagre da vida.
Dai-me, Senhor, condições de utilizar todo meu conhecimento de forma sábia e ilimitada.
Amém
Fonte: CRBM 1° região

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

 PARABÉNS!!!

O Projeto Canudos agradece a colaboração e empenho dos alunos (as) do Curso de Biomedicina  Aline Reis de Albuquerque, Juliana Moraes Alvim, Joyce Venâncio Vieira e Vanessa Lima Cipollari. A participação foi fundamental para os atendimentos e orientações oferecidas aos moradores do vilarejo de Canudos Velho.






  
Aprecie o relato de experiência completo das alunas em:
http://www.projetocanudos.com.br/diario.asp?dr=35

domingo, 10 de agosto de 2014

Feliz dia dos pais!!!!

Desejamos aos pais Biomédicos, aos pais de Biomédicos e aos pais docentes da Biomedicina, em especial aos da Universidade Metodista um maravilhoso dia, 
muitas felicidades!




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Para reverter a anemia

© CDC / JANICE HANEY CARR
Hemácias vistas ao microscópio eletrônico: morte precoce na talassemia
Hemácias vistas ao microscópio eletrônico:
morte precoce na talassemia
Em testes com uma droga experimental, uma equipe internacional coordenada pelo biólogo brasileiro Ivan Cruz Moura e pelo médico francês Olivier Hermine demonstrou ser possível controlar e até reverter o sintoma mais comum e debilitante da talassemia, uma doença genética que não tem cura e exige transfusões sanguíneas por toda a vida. A causa da talassemia são defeitos nos genes que guardam a receita para a produção de uma das duas proteínas que formam a hemoglobina, molécula que transporta o oxigênio e o gás carbônico no sangue. Alterações nesses genes levam à produção de hemoglobinas defeituosas e à morte precoce das hemácias, as células que a abrigam. A morte precoce dessas células leva à anemia, uma redução importante no número de hemácias em circulação, que pode afetar o desenvolvimento e causar problemas cardíacos. Os pesquisadores verificaram que, em experimentos com roedores e testes iniciais com pessoas com talassemia, foi possível aumentar a taxa de amadurecimento das hemácias e reverter a anemia. “Na talassemia, as células precursoras das hemácias morrem por acumular proteínas defeituosas que formam a hemoglobina”, explica Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisas Médicas (Inserm) da França. Usando o composto experimental sotatercept, inicialmente desenvolvido para tratar a osteoporose, os pesquisadores conseguiram aumentar o número de células precursoras que sobreviviam à fase crítica e se tornavam hemácias maduras. O brasileiro Thiago Maciel e o francês Michael Dussiot testaram o composto em camundongos geneticamente modificados para apresentar sintomas de talassemia e obtiveram resultados animadores (Nature Medicine, abril). Como o composto já havia sido dado a mulheres com osteoporose, foi possível iniciar em seguida os testes em humanos. Cerca de 20 pessoas com talassemia haviam sido tratadas até o fim de abril. Oitenta por cento das que receberam doses terapêuticas melhoraram da anemia. “O composto não combate a causa da doença, mas corrige o problema”, diz Moura. “Por ora, podemos dizer que é promissor.” Ele acredita que, se funcionar contra a talassemia, talvez seja útil contra outras formas de anemia.
Fonte: Revista Fapesp on line - edição 221