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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Álcool muda o funcionamento do cérebro


© DANIEL BUENO
O consumo crônico de doses elevadas de álcool muda o funcionamento do cérebro. Altera a estrutura e aumenta a atividade de uma área cerebral profunda, o núcleo estriado, associada ao comportamento impulsivo e à formação de hábitos. Com o tempo, o funcionamento dessa região passa a prevalecer sobre o do córtex pré-frontal, envolvido na tomada de decisão consciente. A confirmação de que esse mecanismo está associado ao consumo compulsivo e à de–pendência de álcool veio de um estudo de Andrew Holmes, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Ele e seus colaboradores submeteram camundongos a ciclos que simulavam bebedeiras antes de ver o efeito no cérebro. Por quatro dias seguidos, os roedores passavam 16 horas expostos a uma elevada concentração de etanol vaporizado no ar, intercaladas por 8 horas sem álcool. Esses animais preferiam beber água com álcool nos dias seguintes à água pura. No fim do teste, as células do núcleo estriado dos roedores que passaram pela bebedeira apresentavam mais conexões e eram mais ativas que as dos expostos apenas ao ar (PNAS, 19 de agosto).
Fonte: Revista Fapesp - edição 211 - 2013

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Pesquisa aponta que brasileiros estão bebendo com mais frequência



 
Índice de pessoas que consomem álcool uma vez por semana ou mais aumentou 20% nos últimos seis anos. Crescimento foi maior entre as mulheres (CDC)
 Agência FAPESP – Metade da população brasileira é abstêmia. Na outra metade consumidora de álcool, no entanto, aumentou 20% o número de pessoas que bebe de forma frequente (uma vez por semana ou mais) nos últimos seis anos. Se considerada apenas a população feminina, mais suscetível aos efeitos nocivos do álcool, o aumento foi de 34,5%.

Os dados são do 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), organizado pelo médico Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A pesquisa contou com apoio da FAPESP por meio do Instituto Nacional de Políticas sobre Álcool e Outras Drogas (Inpad). Um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) instalados em São Paulo, o Inpad é coordenado por Laranjeira.

As entrevistas foram realizadas em 2012 pelo Ipsos Public Affairs e os dados foram divulgados nesta quarta-feira (10/04). Foram ouvidas 4.607 pessoas maiores de 14 anos, em 149 municípios de todas as regiões brasileiras. Os participantes responderam a um questionário com mais de 800 perguntas que tinha como objetivo avaliar o padrão de uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas, além de fatores associados ao uso problemático dessas substâncias, como depressão e violência.

A primeira edição da pesquisa, realizada em 2006 com 3.007 entrevistados e apoio da FAPESP, surpreendeu especialistas em saúde de todo o Brasil – e o próprio Laranjeira – ao revelar um índice alto de abstinência no país: 48%. “Durante mais de 30 anos, acreditei que a taxa brasileira era semelhante à europeia, em torno de 12%”, contou o pesquisador.

A boa notícia é que no levantamento mais recente o número de abstêmios se manteve praticamente estável – com leve alta para 52%. Porém, entre os bebedores, aqueles que adotam um padrão de consumo de álcool considerado nocivo e batizado de “binge” – quatro unidades de álcool para mulheres e cinco para homens em uma única ocasião – aumentou de 45% para 59%. Mais uma vez a mudança é maior quando se considera apenas a população feminina, passando de 36% para 49%.

“O aumento do consumo entre as mulheres, especialmente nesse padrão ‘binge’, terá consequências importantes do ponto de vista da saúde pública no médio prazo. Vai aumentar as taxas de câncer da mulher brasileira”, estima Laranjeira.

Segundo o médico, as evidências apontam que o consumo de duas ou mais doses de álcool por dia pela mulher aumenta em 20% o risco de câncer de mama. Estima-se que 30% dos casos de câncer na população em geral tenham o álcool como um agente causador.

Para Laranjeira, no entanto, um dos dados mais preocupantes é que 20% dos adultos bebedores consomem 56% de todo o álcool vendido no país. A maioria desse grupo é composta por homens jovens, com menos de 30 anos.

“O padrão brasileiro é o de beber fora de casa, nas ruas, nos bares, e de forma excessiva. Os jovens bebem para ficar bêbados e isso aumenta muito o risco de prejuízos à saúde e de envolvimento com violência, drogas e outros comportamentos de risco. A ideia que a indústria do álcool tenta passar, de que no Brasil todo mundo bebe um pouco, não é verdadeira”, afirmou Laranjeira.

O 2º Lenad mostrou também que, entre os bebedores, 16% consomem quantidades nocivas de álcool nas ocasiões em que bebem e dois em cada dez apresentaram critérios para abuso ou dependência – o que corresponde à realidade de 11,7 milhões de brasileiros.

Ainda entre os bebedores, 32% afirmaram já não terem sido capazes de parar depois de começar a beber; 10% disseram que alguém já se machucou em consequência do seu consumo de álcool; 8% admitiram que a bebida já teve efeito prejudicial no trabalho e 9% admitiram prejuízo na família ou no relacionamento.

Quase um terço dos homens jovens bebedores abusivos se envolveu em briga com agressão física no último ano. O levantamento também mostrou um índice mais elevado de depressão entre os que abusam de álcool: 41%. A média de depressão na população em geral é de 25%. “É preciso desassociar a imagem do álcool à alegria. Quem bebe e bebe muito tem mais chance de ficar depressivo do que de ficar feliz”, destacou Laranjeira.

Regulamentação do mercado

Na avaliação de Laranjeira, o crescimento econômico do Brasil nos últimos 10 anos e o consequente aumento da renda per capita é uma das razões do aumento no consumo de álcool – o que torna o país um mercado promissor para a indústria de bebidas.

“O brasileiro em geral está com maior poder aquisitivo. Quem não gastava dinheiro com álcool continua não gastando. Mas os que bebem estão gastando mais com bebida, especialmente as mulheres”, disse o professor da Unifesp.

Outro fator por trás dessa mudança no padrão de consumo, segundo Laranjeira, é a falta de regulamentação do mercado ou fiscalização efetiva. “Como não há regras feitas pelo governo ou pela sociedade, quem comanda o show é a indústria do álcool”, afirmou.

Além de aumento no preço da bebida alcoólica, Laranjeira defende a diminuição dos pontos de venda – que, segundo dados da Ambev, somam 1 milhão em todo o país.

“Há um ponto de venda de bebida alcoólica para cada 200 habitantes no Brasil. E a maioria vende para qualquer pessoa, inclusive para menores de idade. São Paulo é o único estado com uma lei rígida para inibir a venda de bebida para adolescentes, mas ainda precisa avançar na fiscalização”, avaliou.

Laranjeira também defende a proibição da propaganda de bebida alcoólica nos meios de comunicação, que considera direcionada principalmente à população jovem.

“Outra medida importante é regular o horário dos pontos de venda. Quando Diadema proibiu o funcionamento dos bares após as 23 horas, a mortalidade por homicídio caiu mais de 90% no município. Isso é um exemplo de uma medida política que faz a diferença. Já campanhas educativas em escolas, por exemplo, adiantam muito pouco”, opinou.

Lei seca

Uma boa notícia revelada pelo 2º Lenad é que a nova legislação relacionada aos limites de álcool no sangue tolerados para a condução de veículos – popularmente chamada de “Lei seca” – vem surtindo efeitos. De forma geral, houve queda de 21% na proporção de indivíduos que relatam ter dirigido após o consumo de álcool no último ano.

“A população está respondendo à legislação, mas o índice de pessoas que bebe e depois dirige ainda é alto, em torno de 21%. Nos países desenvolvidos é de 1% ou 2%. Só a manutenção dessa política e o aumento da fiscalização conseguirão fazer os números caírem ainda mais”, disse Laranjeira. 

Fonte: Agência Fapesp / http://agencia.fapesp.br
Por Karina Toledo


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Terapia com células-tronco reduz avanço de fibrose hepática


Células-tronco produzidas pela membrana da parte interna da placenta podem estimular a regeneração do fígado
  
Doença é resultante de agressões sucessivas ao fígado, como aquelas causadas pelo consumo excessivo de álcool ou por hepatites virais

Agência FAPESP– Uma terapia à base de células-tronco da placenta humana reduziu em 50% o desenvolvimento de fibrose hepática em experimento feito com ratos.

Os pesquisadores acreditam que o benefício se deve a substâncias produzidas pelas células da membrana amniótica – parte interna da placenta – capazes de estimular a regeneração do fígado. O próximo passo é identificar e isolar essas moléculas, o que abriria caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos.

A fibrose hepática é uma doença resultante de agressões sucessivas ao fígado, como aquelas causadas pelo consumo excessivo de álcool ou por hepatites virais, explica Luciana Barros Sant’Anna, pesquisadora da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), onde a investigação está sendo conduzida com apoio da FAPESP.

“Embora as células do fígado tenham enorme capacidade de se proliferar e de regenerar o órgão, elas acabam morrendo depois de inflamações recorrentes e são substituídas por colágeno”, explica a pesquisadora.

A cirrose é o estágio terminal da doença e o único tratamento disponível nesse caso é o transplante de fígado. Mas essa opção não é viável para muitos pacientes e, por esse motivo, pesquisadores de todo o mundo buscam meios de impedir o agravamento do problema.

A metodologia desenvolvida pelo grupo da Univap, em parceria com o Centro di Ricerca E.Menni (CREM), na Itália, consiste em envolver o fígado dos ratos com a membrana amniótica humana ainda fresca, ou seja, menos de 48 horas após a coleta no hospital.

“Essa membrana faz parte da placenta e é a responsável pela produção do líquido amniótico durante a gestação. Normalmente, todo esse tecido é descartado após o parto”, diz Luciana.

Após a assinatura de um termo de consentimento pelas gestantes, a membrana – que tem aproximadamente 20 por 30 centímetros de tamanho e entre 2 e 3 milímetros de espessura – foi coletada, destacada da placenta e levada para o laboratório, onde passou por lavagem com uma solução de antibióticos e antifúngicos.

Em seguida, o tecido foi fragmentado em pedaços de 6 por 9 centímetros, tamanho suficiente para envolver completamente o fígado de um rato.

Para induzir o surgimento de fibrose nos animais, os cientistas amarraram em dois pontos o ducto biliar, canal que liga o fígado ao duodeno e serve para o transporte de bile.

“Em muitos casos, a fibrose é causada pelo estreitamento do ducto biliar, que pode ser resultado de um problema congênito ou de um cálculo. Como a bile não consegue passar, a pressão no fígado aumenta e o órgão fica inflamado. O modelo animal usado no experimento simula essa situação”, explica a cientista.

Quinze dias após a ligadura do ducto, os animais começaram a desenvolver a fibrose. Aos 28 dias, já apresentavam a doença em estágio avançado.

O experimento foi feito com um grupo de 40 ratos. Metade recebeu a membrana logo após a sutura do ducto biliar. Na outra metade, os cientistas apenas simularam a colocação do tecido, para que todas as cobaias fossem submetidas ao estresse da cirurgia.

“A membrana tem uma flexibilidade muito boa e adere facilmente ao fígado. A fixação foi auxiliada por uma cola específica”, conta a pesquisadora.

Após quatro semanas, metade dos animais de cada grupo foi sacrificada e teve o fígado retirado para análise. Na sexta semana após a colocação da membrana, a outra metade teve o órgão removido.

Redução de danos
Os animais que receberam a membrana apresentaram 50% menos fibrose do que os membros do outro grupo. Ao comparar os animais em períodos diferentes, de quatro e de seis semanas, os cientistas verificaram que a terapia não impediu o surgimento da doença, mas reduziu a severidade e inibiu a progressão para o estágio de cirrose.

As análises foram feitas com auxílio de Nilson Sant’ Anna, chefe do Laboratório de Computação Aplicada do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A quantificação da fibrose foi realizada por meio de um sistema digital de imagem que permitiu identificar, isolar e medir precisamente as áreas do fígado ocupadas pelo excesso de colágeno.

“Este sistema de análise quantitativa de imagem opera de maneira automática e possibilitou a análise rápida e simultânea da fibrose em 1.800 imagens histológicas”, conta Nilson.

Os resultados foram premiados no 3º Tissue Engineeringand Regenerative Medicine World Congress, realizado na Áustria em 2012. Também foram publicados em artigo na revista Cell Transplantation.

“Alguns grupos de pesquisa já isolaram as células-tronco da membrana amniótica e estão trabalhando com elas separadamente. Optamos por usar a membrana amniótica fresca por ser um processo rápido e menos custoso, além de preservar as células em seu habitat, isto é, na matriz extracelular”, relata Luciana.

O objetivo do grupo agora, de acordo com a pesquisadora, é descobrir exatamente quais são as substâncias produzidas pelas células da membrana amniótica e como elas atuam.

“Teremos de isolar as células-tronco e colocá-las em um meio de cultura para depois analisar, por técnicas de biologia molecular, quais moléculas elas estão produzindo. No futuro, isso poderia ser sintetizado em laboratório e virar um medicamento”, diz a cientista da Univap.

Antes disso, porém, os pesquisadores estão conduzindo um novo experimento com ratos no qual a membrana é aplicada no fígado duas semanas após a ligadura do ducto biliar, quando o processo de fibrose já teve início.

“A ideia é simular uma situação mais parecida com a que acontece com os humanos. Geralmente, quando a doença é diagnosticada, boa parte do órgão já está comprometida”, conta.

O grupo não descarta a possibilidade de fazer o experimento também em humanos. Nesse caso, porém, ainda não poderia ser usada a membrana fresca por causa do risco de infecções.

“Nós apenas coletamos a placenta de mulheres cujos exames sorológicos sejam negativos para doenças como sífilis, HIV, toxoplasmose e hepatite. Mas a gestante pode estar em uma janela imunológica no momento do parto”, afirma a cientista brasileira.

Para evitar riscos, a membrana tem de ser congelada a menos 70 graus Celsius após a desinfecção, e a gestante deve ser submetida a novos exames seis meses após o parto. O congelamento, no entanto, parece reduzir em cerca de 40% a viabilidade das células-tronco.

A grande vantagem do método, afirmou a pesquisadora, é que a placenta é uma fonte de células-tronco segura e de fácil acesso. Como elas produzem substâncias imunomoduladoras, que originalmente têm a função de evitar que o bebê seja rejeitado pelo organismo materno, não há risco de causarem rejeição nos receptores, sejam eles humanos ou de outras espécies.

“Além disso, não existem complicações legais, éticas ou religiosas para a coleta e uso dessas células em pesquisas, uma vez que não são células embrionárias e sua obtenção não requer procedimentos invasivos”, acrescenta a pesquisadora da Univap.


Fonte: Revista Fapesp | Edição Online 10:34 /  21 de janeiro de 2013 por Karina Toledo
Imagem: © NISSIM BENVENISTY/WIKICOMMONS