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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Novas estratégias contra a Aids

Em macacos, anticorpos detiveram a replicação do HIV

© HIVR4P
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Anthony Fauci apresentou os resultados de experimentos que podem levar a uma nova estratégia de tratamento e prevenção da AIDS
de Chicago

No final da tarde de segunda-feira, dia 17, diante de uma plateia de quase 2 mil pessoas, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), apresentou os resultados de experimentos realizados por sua equipe, em colaboração com outros centros de pesquisa dos Estados Unidos, que podem levar a uma nova estratégia de tratamento e prevenção da AIDS. É o uso de anticorpos que bloqueiam a ação da integrina α4β7, uma proteína que controla a ação de células do sangue conhecidas como CD4, importante no combate ao vírus HIV.
“Ainda não é a cura, mas conseguimos deter a replicação do vírus”, disse ele em sua apresentação na primeira sessão plenária do Congresso HIV Research for Prevention (HIVR4P), que seguirá até sexta, dia 21, em Chicago, nos Estados Unidos. Se avançar como esperado, essa estratégia poderia resolver ou amenizar um problema do tratamento de pessoas com HIV/AIDS: os medicamentos antivirais eliminam com eficácia a replicação do HIV, mas o vírus volta a se replicar logo depois de a medicação ser interrompida.
As conclusões que ele apresentou baseiam-se em um estudo realizado com 15 macacos e publicado em 14 de outubro na Science. Durante 90 dias, contados a partir da quinta semana após a infecção, sete animais receberam uma medicação antiviral (imunoglobuina G) e oito, o anticorpo. Depois desse período, o HIV voltou a se multiplicar nos animais que receberam antiviral, enquanto os do grupo não apresentaram sinais de aumento da carga viral mesmo depois de nove meses depois da interrupção do tratamento.
“É uma prova de conceito em modelos animais, e estamos planejando agora uma prova de conceito em seres humanos”, disse ele a Pesquisa FAPESP, após a apresentação. Por ser a avaliação de uma hipótese – uma prova de conceito –, em geral não se sabe se a proposta é factível, mas neste caso os pesquisadores tiveram sorte. O anticorpo foi aprovado pela Agência de Alimentos e Medicamentos (FDA) dos Estados Unidos em 2014 com o nome de vedolizumab, para tratamento de doenças inflamatórias intestinais.
“Temos de avaliar a segurança e a eficácia da droga com muito cuidado, porque foi aprovada contra colite, não contra Aids”, disse Fauci. O NIAID está planejando um teste clínico com 17 a 27 pessoas com HIV para verificar se seria possível obter os mesmos resultados obtidos em macacos. Se der certo, segundo Fauci, a etapa seguinte seria um teste em escala maior, com centenas de participantes.
Em 30 anos, a Aids deixou de ser uma doença fatal e se tornou tratável, mas a transmissão do vírus continua crescendo. Os 28 países da Comunidade Europeia registraram quase 30 mil novos casos por ano, com crescimento da transmissão entre homens (+44% de 2005 a 2014) e redução da transmissão heterossexual (-33%, no mesmo período), segundo Ruxandra Draghia-Akli, diretora geral de Pesquisa e Inovação da Comissão Europeia. “Um programa de prevenção com o grupo de homens que fazem sexo com homens deveria ser prioridade na Europa”, disse ela.
Nos Estados Unidos, registram-se cerca de 50 mil novos casos por ano e no Brasil, cerca de 40 mil. No mundo todo, 28 milhões de pessoas recebem o diagnóstico positivo para HIV a cada ano.
“Os medicamentos de ação prolongada serão muito importantes para tratar e prevenir a Aids”, disse Myron Cohen, diretor do Institute for Global Health and Infectious Diseases. Até o momento, nenhuma das vacinas previstas funcionou de modo satisfatório, embora outras estratégias, como os medicamentos profiláticos e dispositivos como os aneis vaginais com microbicina, estejam sendo avaliados e debatidos no congresso de Chicago.

Artigo científico
Siddappa N. Byrareddy, S.N. et al. Sustained virologic control in SIV+ macaques after antiretroviral and α4β7 antibody therapy. Science , v. 354, n. 6309, p. 197-202, 2016.
Fonte: Revista Fapesp on line 2016
Por CARLOS FIORAVANTI 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Medicamento anti-HIV é obtido de soja transgênica



Remédio na planta 




O uso milenar de plantas para aliviar doenças ganha outras formas sob o domínio da biotecnologia. Dezenas de experimentos em todo o mundo, em empresas ou instituições acadêmicas, utilizam técnicas de inserção de genes em genomas de plantas que possam codificar enzimas de interesse farmacológico. Assim é possível que o cultivo de soja, milho e batata ou mesmo plantas ornamentais possa no futuro ser usado em larga escala, em versões transgênicas, para a produção de medicamentos. Um exemplo desses experimentos que acontecem no Brasil, na unidade de Recursos Genéticos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Brasília, é o desenvolvimento de uma variedade de soja com um viricida ou microbicida, capaz de prevenir a contaminação pelo vírus causador da Aids. Com a ajuda da engenharia genética, essa leguminosa está produzindo sementes, em uma estufa na capital federal, com a enzima cianovirina-N que já teve comprovada sua eficácia contra o vírus em testes laboratoriais em estudos pré-clínicos.

Esse tipo de experimento ganhou força em maio de 2012, quando a Food and Drug Administration (FDA), a agência federal norte-americana de regulação de medicamentos e alimentos, aprovou para uso comercial o primeiro fármaco produzido com engenharia genética em células de plantas para seres humanos. O princípio ativo é a proteína taliglucerase alfa, produzida em células de cenoura transgênica para tratamento da doença de Gaucher, uma enfermidade genética e rara provocada pela  falta no organismo da glucocerebrosidase, uma enzima atuante no processamento de glicocerebrosídeos, um tipo de  gordura celular. O paciente tem anemia e aumento do baço e do fígado. O medicamento desenvolvido e produzido pela empresa israelense Protalix, e distribuído em parceria com a  norte-americana Pfizer, foi também aprovado em Israel e no Brasil, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em março deste ano, com o nome de Uplyso. O tratamento até agora era feito com outro fármaco em que a proteína é produzida em linhagens de células modificadas de hamsters, num processo biotecnológico que está mais sujeito a contaminações.

A proteína sintetizada na cenoura é similar à produzida pelo próprio organismo humano. No caso da cianovirina a história é diferente. Ela foi isolada na década de 1990 de uma cianobactéria, que leva o nome científico de Nostoc ellipsosporum, em pesquisas do Instituto Nacional de Câncer (NCI, na sigla em inglês) e dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos. As cianobactérias são bactérias azuis e chamadas erroneamente de algas azuis. Pesquisadores dos NIH e da Universidade de Londres, na Inglaterra, idealizaram um gel com a cianovirina para ser aplicado antes das relações sexuais. O princípio ativo inibe a replicação do HIV ao se ligar aos oligossacarídeos (açúcares) do vírus. “A cionovirina-N está no estágio de desenvolvimento pré-clínico, portanto ainda não foi testada em seres humanos”, diz o pesquisador Barry O’Keefe, vice-chefe de biologia molecular do laboratório de alvos moleculares do NCI. Ele liderou um estudo publicado em 2003 que demonstrou a atividade da proteína também contra alguns vírus da gripe (influenza A e B) e participa dos estudos para o desenvolvimento da cianovirina. “Falta um meio comercialmente viável, de baixo custo, de produção em larga escala da cianovirina-N, e as plantas são um bom caminho para esse fim”, diz O’Keefe.

 
Obter a proteína em grande quantidade foi a dificuldade inicial dos pesquisadores norte-americanos logo depois dos estudos laboratoriais que indicaram as atividades contra alguns tipos de vírus. Os NIH tentaram a produção via DNA recombinante, em que o gene codificador da proteína é inserido no genoma de outra bactéria mais fácil de cultivar, a Escherichia coli, para a posterior extração da substância. Mas a produção foi baixa e se mostrou economicamente inviável. A solução encontrada pelo pessoal dos NIH, liderado por O’Keefe, foi procurar o professor Elíbio Rech, da Embrapa, coordenador do grupo brasileiro que havia depositado uma patente no exterior, de uma técnica para inserção de genes em soja, e tinha experiência no desenvolvimento de culturas transgênicas. “Os norte-americanos nos procuraram em 2007 e fizemos a parceria. Eles nos repassaram a sequencia genética codificadora do gene que inserimos no genoma de uma variedade de soja da Embrapa, a 10-16. E deu certo, já temos as sementes das plantas engenheiradas por nós produzindo a cianovirina”, diz Rech. Eles isolaram o princípio ativo da soja. O ensaio viral para a confirmação da ação da cianovirina produzida pela Embrapa foi feito pelo professor Amilcar Tanuri, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e também no laboratório de O’Keefe, nos Estados Unidos. E o resultado foi positivo.

O desafio atual é melhorar o processo de extração da proteína, purificando quantidades maiores da cianovirina das sementes de soja. “Nossos resultados apontaram a presença de 10 gramas (g) da proteína por quilo de sementes frescas. Sabemos que não podemos tirar os 100% de fármaco do grão da leguminosa porque é normal que ocorram perdas no processo de purificação. Até agora já atingimos os 20%, ou 2 g, e nossa meta é atingir 50%”, diz Rech. O processo de purificação de proteína é trabalhoso, exige várias fases. No caso da Embrapa, a purificação está sendo realizada com resinas. Conforme o óleo de soja passa por um processo semelhante a uma filtração em que as resinas fazem o papel de filtros, as proteínas contidas na soja vão se dissolvendo, inclusive a cianovirina.

“Nossa intenção é produzir uma quantidade suficiente da proteína para testar o principio ativo em macacas nos Estados Unidos, e posteriormente em seres humanos”, explica Rech. O propósito do trabalho dos NIH, da Universidade de Londres e do Conselho para a Pesquisa Científica e Industrial (Csir Biosciences) da África do Sul, que são grupos que participam da pesquisa, é levar o gel para o continente africano, onde a transmissão de Aids ainda é grande. A produção da cianovirina também está sendo testada em plantas de tabaco na Inglaterra, na Universidade de Londres, e nos Estados Unidos. “No tabaco, o medicamento não está apenas nas sementes, mas se expressa na planta toda. Na África, sob a liderança da pesquisadora Rachel Chikwamba, do Csir, os experimentos também seguem o caminho de produzir a cianovirina em soja e em tabaco, mas ainda não obtiveram sucesso”, diz Rech.

Outra conquista da Embrapa em Brasília foi o desenvolvimento de algumas linhagens de soja transgênica que produzem em suas células o fator IX de coagulação, um componente existente no sangue humano cuja falta é uma das causas da hemofilia, doença genética em que a pessoa sofre problemas na cicatrização e na contenção de hemorragias. Ele é produzido atualmente de plasma sanguíneo, a partir do sangue doado nos hospitais, ou em cultura de células de camundongos por meio da inserção no genoma do roedor do gene que codifica a proteína do fator IX. “Há um gargalo também no desenvolvimento de sistemas de purificação mais eficientes e produtivos”, diz Rech. “Terminamos essa soja com fator IX no ano passado depois de cinco anos, testamos a molécula presente nas sementes e agora repassamos o material para a Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP)], parceira do projeto, para a sequência da fase de purificação da molécula.”

“Recebemos 360 g de soja liofilizada transgênica e já foram feitos os testes que mostram a presença dessa proteína, o fator IX. Agora, como assumi o cargo de professora do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, esses estudos estão sob a coordenação dos professores Dimas Tadeu Covas e Lewis Joel Greene, do Hemocentro de Ribeirão Preto”, diz a bióloga Aparecida Maria Fontes, que era pesquisadora do Hemocentro e parceira na pesquisa. “A produção de fator IX em planta é muito importante porque, além de não se utilizar o material dos bancos de sangue que é escasso, cria-se uma alternativa com outro veículo de produção. Até o momento, a única molécula do fator IX produzida com técnicas biotecnológicas é elaborada em células de hamsters”, diz Aparecida.

Em todas as pesquisas e mesmo em futuras plantações de soja transgênica, que vão produzir medicamentos, são levadas em conta várias iniciativas de biossegurança. “As plantas são produzidas sob contenção, em casas de vegetação [estufas] totalmente teladas. Isso acontece para evitar situações que são até muito difíceis de acontecer como, por exemplo, que um pássaro pegue uma semente e leve para outro lugar onde a soja germine e alguém possa comer as sementes. Não é veneno, mas devemos lidar com essas plantas como fonte de medicamento, de forma diferente da soja usada na alimentação. As plantações futuras também deverão ser cercadas, de modo a que nenhum estranho tenha acesso”, diz Rech.

Entre as vantagens da geração de fármacos em plantas estão os custos mais baixos, com produção de larga escala e também com a segurança se comparada com células humanas, fungos, bactérias e animais. “Também é mais fácil de manipular o produto agrícola. A vantagem da soja ou de outro vegetal é que podemos colher e estocar”, diz Rech. Em um artigo publicado na revista Nature em 2012 (10 de maio) na seção News in Focus, que comentou a aprovação para uso comercial do medicamento para doença de Gaucher produzido com cenouras, o autor, Amy Maxmen, diz que o Elelyso, ou Uplyso, remédio aprovado pela FDA, pode ser vendido por 75% do valor do medicamento tradicional, o Cerezyme, produzido com células de hamsters. O tratamento tradicional pode custar até US$ 300 mil por ano por paciente. Maxmen informa que o mercado global de fármacos de produtos biotecnológicos alcançou a marca de US$ 149 bilhões em 2010. “O futuro dos métodos de produção à base de plantas é muito promissor para os biofarmacêuticos. É um momento muito emocionante para quem trabalha com esse tipo de pesquisa”, diz O’Keefe à Pesquisa FAPESP. “Elibio Rech e seus colegas na Embrapa fazem parte de uma indústria crescente de grande importância para o futuro.”

Fonte: Revista Fapesp online abril/2013
Por: Marcos de Oliveira


Artigos científicos
O’Keefe, B.R. et al. Potent Anti-Influenza Activity of Cyanovirin-N and Interactions with Viral Hemagglutinin. Antimicrobial Agents and Chemotherapy. v. 47, n. 8, p. 2.518-25. ago. 2003.

Rech, E.L. et al. High-efficiency transformation by biolistics of soybean, common bean and cotton transgenic plants.
Nature Protocols. v.3, n. 3, p. 410-18. fev. 2008.
 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Penicilina deu impulso à revolução sexual, diz estudo


Na década de 1960, a pílula anticoncepcional quase que eliminou o risco de gestações indesejadas, criando a era do "amor livre" e a revolução sexual no Ocidente --frutos também de mudanças culturais.

Mas um novo estudo mostra que a tal revolução começou anos antes, graças ao uso disseminado da penicilina para combater a sífilis --doença venérea que chegou a ser proporcionalmente tão letal quanto a Aids seria depois.

Os dados coletados pelo economista Andrew Francis são persuasivos. Francis, professor da Universidade Emory, de Atlanta, no sul dos EUA, publicou sua análise na revista científica "Archives of Sexual Behavior".

CURA FÁCIL

É simples. A penicilina reduziu muito o risco de morrer de sífilis. Quem pegava a doença podia ser facilmente curado. E quanto maior e melhor a chance de fazer sexo "arriscado", fora do casamento, com estranhos, na adolescência, mais as pessoas procuravam a atividade.

Francis, um economista, compara a atitude das pessoas com a clássica lei da oferta e da procura. O custo da mercadoria baixou? As pessoas compram mais. Também vale para o sexo.

Em uma década, entre o fim dos anos 1940 e os anos 1950, a incidência de sífilis caiu 95% e a mortalidade pela doença despencou 75%, enquanto as taxas de nascimentos de bebês concebidos fora do casamento, a gravidez na adolescência e a incidência da gonorreia --indicadores usados pelo pesquisador para detectar o comportamento sexual mais liberal-- subiam nos EUA.

 
Francis também compara a epidemia de sífilis com a de Aids. "Estudos recentes relatam que o desenvolvimento da terapia antirretroviral pode ter levado alguns homens que fazem sexo com homens a se preocupar menos com a transmissão do HIV e, portanto, a se tornar mais propensos a comportamentos de risco", diz o economista.

Para Francis, essa mudança de atitude pode ter surgido por esses homens acharem que o risco de transmissão é menor por causa da terapia antirretroviral ou pela crença de que contrair o HIV não é mais temível porque os remédios prolongam a expectativa de vida das pessoas infectadas com o vírus.

O economista diz que a penicilina pode ter tido um efeito similar no comportamento sexual e, portanto, a propagação do HIV década atrás pode ter sido facilitada pelo colapso da sífilis.

Apesar de o trabalho só ter usado números dos Estados Unidos, Francis acredita que suas conclusões se aplicam a outros países.

"Certamente o colapso da sífilis por causa da penicilina é um fator importante por trás da mudança de comportamento sexual outras regiões", disse o economista à Folha.

Fonte: Folha de São Paulo on line

Por: Ricardo Bonalume Neto

Imgem: Lydia Megumi/Editoria de Arte/Folhapress

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Detecção do vírus HIV em teste nacional é falha


Atrasado na sua implantação há dez anos, o teste de sangue fabricado pelo governo brasileiro (NAT) e já utilizado no SUS para a detecção precoce do vírus HIV e da hepatite C tem falhas, segundo hematologistas brasileiros.

O teste NAT (ácido nucleico) reconhece o material genético do vírus e detecta a sua presença mais cedo no organismo do que o convencional (Elisa). O nacional é feito pelo instituto Bio-Manguinhos, da Fiocruz. Os comerciais são da Roche e da Novartis.

O alerta foi feito durante congresso da ABHH (Sociedade Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular). Os médicos devem pedir que o Ministério da Saúde interrompa a distribuição do teste nacional NAT até que as falhas sejam corrigidas.

Segundo Dante Langhi Junior, diretor da ABHH e médico do hemocentro da Santa Casa de São Paulo, vários serviços relataram problemas. "A gente testa com o Elisa e dá positivo [para Aids ou hepatite], depois testa com o NAT do governo e dá negativo. Volta a testar a mesma amostra com o NAT comercial e dá positivo. O teste do governo não garante a segurança a que ele se propõe."

Não há notícias, porém, de que tenha havido contaminação por conta dessas falhas.

Em 12 amostras de sangue testadas pelo Hemocentro de Ribeirão Preto, ligado à USP, o NAT nacional não detectou o HIV em oito delas. "Ele falha numa grande proporção dos casos", diz o diretor Dimas Tadeu Costa.

Segundo ele, a sensibilidade do teste é estimada em 30 partículas virais. Mas o NAT nacional só conseguiu perceber a presença do HIV quando havia 500 partículas. "Isso é que faz a diferença na janela imunológica. Quanto menos vírus se consegue detectar, maior é a segurança da transfusão." Ele decidiu não usar mais o NAT nacional.

"Não existe transfusão com risco zero. Mas, se temos testes que comprovadamente minimizam os riscos de transmissão de doenças, temos obrigação legal de utilizá-los", afirma Langhi Junior.

Na opinião de José Augusto Barreto, superintendente da Colsan (Associação Beneficiente de Coleta de Sangue), o ministério se precipitou em incluir o teste na rotina.

OUTRO LADO

Durante o congresso, o coordenador da área de sangue e hemoderivados do Ministério da Saúde, Guilherme Genovez, disse que o teste está em fase de desenvolvimento e que os problemas são "totalmente solucionáveis".

"Temos soluções tecnológicas e ajustes, mas nenhum problema que invalide o teste", afirmou. Ele garantiu ainda que esses ajustes acontecerão até a publicação da portaria, que tornará o teste obrigatório, prevista para sair até o final do mês.

Fonte: Folha de São Paulo - 13/11/ 2012
Cláudia Collucci - ENVIADA ESPECIAL AO RIO DE JANEIRO
Ayrton Vignola - 25.fev.2005/Folhapress