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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Em um verme, as travas do envelhecimento: Fármaco melhora o funcionamento celular em C. elegans


© LÉO RAMOS
Vermes à mão: luta contínua para ampliar a expectativa de vida
Vermes à mão: luta contínua para ampliar a expectativa de vida
Todo dia, na hora do almoço e no final da tarde, em um dos laboratórios do sétimo andar de um prédio antigo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o estudante de medicina Vitor Neves Sato examina sob o microscópio os movimentos de vermes transparentes conhecidos como Caenorhabditis elegans, que chegam a no máximo 1 milímetro de comprimento e deslizam sem parar com explícita elegância, como minúsculas cobras, sobre a placa de Petri. Seu interesse é observar os efeitos de um antibiótico sobre a expectativa de vida desse organismo, que começou a ser usado em laboratório há exatos 50 anos e permitiu uma série de descobertas importantes. Foi no C. elegans que os biólogos identificaram os primeiros genes associados ao envelhecimento e o mecanismo da morte celular programada, essencial para o desenvolvimento de qualquer ser vivo.
Sato tem visto que os vermes que cresceram no meio de cultura com antibiótico, em comparação com os que não receberam, viveram de 9% a 19% mais – ou até 10 dias extras, tempo considerável para um ser que raramente vive mais de um mês. O fármaco deve prolongar a vida do verme não por matar bactérias – das quais, por sinal, ele se alimenta –, mas por aumentar a produção e a ação da enzima Dicer e de pequenas moléculas conhecidas como microRNAs. Identificados pela primeira vez em 1993 em C. elegans, os microRNAs são um tipo de ácido ribonucleico (RNA), que, neste caso, adere a outro tipo de RNA, o mensageiro, e contribui para reduzir a produção de proteínas. Em resposta a esse bloqueio, segundo Marcelo Mori, professor da Unifesp que coordena o trabalho, as células devem otimizar a produção de energia, evitando desperdícios e a formação de resíduos, cujo excesso pode danificar o DNA e acelerar o desenvolvimento de doenças associadas ao envelhecimento e a doenças como o câncer.
© LÉO RAMOS
Uma comunidade de C. elegans: vida média de um mês
Uma comunidade de C. elegans: vida média de um mês
Desse modo, o antibiótico, cujo nome Mori mantém em sigilo, simula o efeito da restrição calórica, uma forma reconhecida de viver mais, embora em si seja impraticável para os seres humanos, porque implicaria comer 30% a 40% menos “até a morte”, ele ressalta. Outra forma de obter esse efeito é bloquear a ação do gene mTOR, associado à síntese de proteínas. Em um estudo publicado em agosto na Cell Reports, pesquisadores dos Estados Unidos estenderam a expectativa de vida de camundongos em cerca de 20%, o equivalente a ampliar a vida de uma pessoa em 16 anos, reduzindo a atividade do gene mTOR. Curiosamente, nesse experimento, a longevidade não foi a mesma nos diferentes tecidos e órgãos. Os animais ganharam em retenção de memória, coordenação motora e força muscular à medida que envelheciam, mas seus ossos se deterioravam mais rapidamente que o normal, além de se mostrarem mais suscetíveis a infecções.
Ivan José Vechetti Junior, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, trabalha ao mesmo tempo com microRNAs, mTOR e um dos efeitos do envelhecimento, a perda de massa muscular. Nos experimentos que fez de janeiro a maio deste ano na Universidade de Kentucky, Estados Unidos, ele verificou que a produção de um tipo de microRNA, o microRNA1, caiu à metade nos camundongos com hipertrofia muscular nas patas, causada pela retirada de parte dos músculos. Em cultura de células, porém, o microRNA1 agiu de modo inesperado. “O microRNA1 regulou o gene mTOR de modo sutil, não aumentando sua expressão, como esperávamos, mas prolongando sua ação”, diz ele.
Em seu doutorado, sob a orientação de Maeli Dal Pai, Vechetti Junior está examinando a expressão de microRNAs na regeneração muscular de ratos idosos submetidos a atrofia muscular por meio de imobilização. Se o trabalho correr bem, ele espera encontrar novas estratégias para atenuar ou bloquear a perda muscular associada ao envelhecimento, indicando, por exemplo, como deve funcionar a recuperação muscular de pessoas idosas que sofreram uma queda, por exemplo, e passaram certo tempo imobilizadas. “Quais os limites da recuperação muscular? O quanto os exercícios físicos realmente ajudam nessa recuperação?”, ele se pergunta.
Efeito Quasímodo
Os estudos em andamento na Unifesp indicam outro efeito da intensificação da produção de microRNAs: a diluição de agregados do aminoácido glutamina. Segundo Mori, o envelhecimento e algumas enfermidades, como a doença de Huntington, distúrbio neurológico de origem genética, estão associados à formação de aglomerados proteicos ricos em glutamina. Para mostrar que poderia estar no caminho de uma solução para esse problema, Mori mostra os C. elegans que cresceram no meio de cultura enriquecida com antibiótico – e acompanhados, desta vez, pela estudante de biomedicina Ana Forti Pinca. Sob o microscópio, os minúsculos vermes exibem vários pontos verdes espalhados pelo corpo – são as poliglutaminas ligadas a uma proteína fluorescente verde, que facilita a identificação das moléculas que se quer estudar – e se movem sem parar. Em outra placa de Petri, nos vermes que não passaram pelo banho de antibiótico, as esferas verdes são menores, mas aparentemente mais insolúveis e parecem prejudicar o movimento como a corcunda do Quasímodo, personagem do livro O corcunda de Notre-Dame.
© ANA PAULA FORTI PINCA/UNIFESP
Os vermes verdes: as proteínas fluorescentes tendem a se agregar, reduzindo a vitalidade
Os vermes verdes: as proteínas fluorescentes tendem a se agregar, reduzindo a vitalidade
Mori verificou inicialmente em camundongos, durante seu pós-doutoramento na Universidade Harvard, Estados Unidos, que uma das principais fontes de microRNAs é o tecido adiposo, formado pelas células de gordura, que nos seres humanos em geral se concentra sob a pele e na região abdominal. Seu trabalho indica que as células de gordura exercem um papel ativo no controle do peso e do metabolismo, em vez de apenas exibirem as consequências da gula ou do sedentarismo (ver reportagem). “O tecido adiposo serve como termostato nutricional”, diz ele. “É o primeiro a responder em caso de restrição alimentar, gastando as reservas de energia e sinalizando para as células dos músculos e de outros tecidos que é hora de ser mais eficiente.”
Já se sabia que as células de gordura, produzindo o hormônio leptina, podem inibir o apetite e estimular o metabolismo celular, resultando em perda de peso. Segundo Mori, a sinalização leptina está, por sua vez, associada ao envelhecimento e ao aparecimento de doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. O trabalho de Mori descreve uma ação oposta, desacelerando a atividade celular por meio de microRNAs. Em Harvard, Mori mediu a quantidade de microRNAs do tecido adiposo de diferentes tecidos em camundongos mais jovens ou mais idosos. Com o envelhecimento, ele observou, havia uma redução na quantidade de microRNA do tecido adiposo, mas a restrição calórica revertia esse quadro, mantendo os níveis da enzima Dicer e dos microRNAs.
A associação, logo depois confirmada em C. elegans, parecia direta: os animais com os níveis mais altos de Dicer e microRNAs viviam mais, e os com menos morriam antes. “A Dicer está superexpressa em restrição calórica e aumenta a resistência ao estresse oxidativo, que é prejudicial para as células”, ele observou. Do mesmo modo, como detalhado em um artigo publicado na revista Cell Metabolism em 2012, a perda de função dessa enzima, causada por mutações, levava as células à senescência. “A produção de microRNAs no tecido adiposo pode controlar o envelhecimento”, ele concluiu.
Mori começou a trabalhar com C. elegans em 2007 em Harvard porque precisava de organismos com um ciclo de vida menor que o dos camundongos. De modo similar, o biólogo sul-africano Sydney Brenner, inicialmente em Cambridge, Inglaterra, e depois em San Diego, Estados Unidos, inaugurou os estudos com C. elegans em 1963 porque procurava um organismo que, além de crescer rapidamente, lhe permitisse observar o crescimento de células e órgãos, como não era possível em drosófila, o inseto que é o modelo clássico para estudos em genética.
No início, enquanto Brenner preparava e selecionava mutantes, que seriam fundamentais para as pesquisas que decolariam logo depois, a maioria das pessoas não levava o bicho a sério. Um colega de Brenner lhe disse que “não daria um centavo” por seu trabalho, lamentando que ele estivesse 20 anos à frente de sua época, contou o biólogo em 2009, sete anos depois de ter sido um dos ganhadores do Prêmio Nobel em reconhecimento a seus estudos sobre regulação gênica, feitos em C. elegans. “Me contaram que existem hoje 400 laboratórios de C. elegans”, ele comemorou. “Frequentemente me perguntam por que deixei a pesquisa com C. elegans justamente quando estava se tornando realmente interessante. A resposta é simples: as pessoas dessa área hoje são muito melhores que eu era.” Brenner gostava mesmo era de abrir caminhos, que era, como ele definiu, “a parte mais emocionante da pesquisa científica”.
Oportunidade
“Pouca gente trabalha com C. elegans no Brasil, talvez com receio da aceitação de um modelo experimental diferente, que eu vi como oportunidade”, diz Mori, que há dois anos trouxe os bichos na bagagem ao voltar dos Estados Unidos. Agora ele tem uma coleção de 50 linhagens, mantidas em quatro estufas a uma temperatura média de 21º Celsius.
Seu trabalho ainda não tem aplicações, porque os microRNAs constituem na verdade um grupo de centenas de moléculas com tamanho médio de 20 nucleotídeos – e provavelmente algumas agem contra e outras a favor do envelhecimento. O problema é que os microRNAs parecem estar por toda parte e exercer muitas funções: podem, por exemplo, participar da progressão de tumores de próstata, como demonstrado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), de doenças cardiovasculares, como estudado no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, ou do controle do ritmo circadiano, como é chamado o período de cerca de 24 horas sobre o qual se baseia o ciclo biológico de quase todos os seres vivos, como proposto por um grupo da Universidade Federal de Alagoas.
Apesar das incertezas sobre o papel dessas moléculas, Mori acredita que o controle da enzima Dicer e dos micro-RNAs poderia ser uma estratégia viável para aumentar a expectativa de vida, simulando o efeito da restrição calórica por meio de medicamentos como o antibiótico que ele está avaliando. Evidentemente, o envelhecimento é um processo biológico muito complexo. Em uma conferência realizada em agosto na Itália, Mori observou que um dos focos atuais de atenção são as mitocôndrias, compartimentos celulares responsáveis pela produção de energia. “A comunicação entre a mitocôndria e o núcleo regula a síntese de proteínas e, desse modo, controla o envelhecimento”, diz ele. “Está chegando o momento em que poderemos integrar informações independentes e ter uma noção mais clara de como o organismo envelhece e de como intervir efetivamente.”
Projeto
Identificação de mecanismos responsáveis pelos efeitos benéficos da restrição calórica (10/52557-0); Modalidade Apoio a Jovens Pesquisadores; Coordenador Marcelo Alves da Silva Mori – Unifesp; Investimento R$ R$ 696.496,53 (FAPESP).
Artigos científicos
BRENNER, S. In the beginning was the worm… Genetics. v. 182, p. 413-5. 2009.
MORI, M.A. et al. Role of microRNA processing in adipose tissue in stress defense and longevity. Cell Metabolism. v. 5, n. 16, p. 336-47. 2012.

Fone: Revista Fapesp
Por: CARLOS FIORAVANTI | Edição 212 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A saúde nos tempos do imperador: Análise de ossadas revela o perfil de doenças que atingiram diferentes populações do Rio de Janeiro entre os séculos XVII e XIX


© LÉO RAMOS
Ossada no Cemitério dos Pretos Novos: parte dos escravos já chegava ao Brasil com a bactéria da tuberculose
Ossada no Cemitério dos Pretos Novos: parte dos escravos já chegava ao Brasil com a bactéria da tuberculose
Uma equipe de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está decifrando as condições de saúde da população do Rio de Janeiro nos períodos colonial e imperial. E dois resultados obtidos recentemente chamam a atenção. O primeiro é que as doenças causadas por vermes eram bastante disseminadas: afetavam os pobres, que sabidamente viviam em ambientes insalubres, e também os ricos, que em princípio estariam mais protegidos por disporem de melhores condições sanitárias. Já o segundo resultado atribui uma possível nova origem para a tuberculose dos escravos africanos. Apresentado em maio deste ano na revista Emerging Infectious Diseases, ele indica que ao menos parte dos negros já teria chegado ao Brasil com a infecção, e não se contaminado depois de aportar no Rio, a então capital do país.
O grupo coordenado pela bióloga Alena Mayo Iñiguez na Fiocruz chegou a essas conclusões depois de realizar análises genéticas e parasitológicas em esqueletos humanos encontrados nos últimos anos em três sítios arqueológicos do Rio: o cemitério dos Pretos Novos, o da Praça XV e o da Igreja Nossa Senhora do Carmo. Hoje confinados em uma área relativamente pequena no centro da capital fluminense – o da Praça XV e o do Carmo ficam a poucas quadras de distância um do outro, na área mais central da cidade, enquanto o dos Pretos Novos está a cerca de 2 quilômetros a noroeste dali, na zona portuária –, esses antigos cemitérios receberam no passado os restos mortais de pessoas de origens sociais bem distintas. Por essa razão, as informações extraídas dessas ossadas permitem agora entender melhor como viviam e morriam os moradores do que foi o maior e mais importante centro comercial do país nos períodos colonial e imperial.
Nos séculos XVIII e XIX o cemitério da Praça XV de Novembro recebeu corpos de pessoas de todas as classes sociais, sobretudo das que morriam durante as epidemias, motivo pelo qual ele dá uma ideia geral do estado de saúde da população carioca na época. “Nessas ossadas identificamos marcadores genéticos de ameríndios, europeus e africanos”, conta Alena, pesquisadora do Laboratório de Biologia de Tripanosomatídeos do Instituto Oswaldo Cruz, da Fiocruz, e coordenadora dos estudos.
© LÉO RAMOS
Cemitério nobre: sítio arqueológico na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, onde eram enterrados os abastados
Cemitério nobre: sítio arqueológico na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, onde eram enterrados os abastados
A análise do material coletado de 10 pessoas mostrou que 80% delas apresentavam infecção por parasitas intestinais – em especial, vermes e protozoários. Os parasitas mais comuns eram os vermes do gênero Trichuris. De corpo alongado e com até 4 centímetros de comprimento, esses vermes vivem nos intestinos e, em grande número, podem causar sangramentos e anemia – além deTrichuris, também foram achados ovos de tênia e de lombriga. O grupo de Alena encontrou ovos de Trichuris em 70% das amostras estudadas. De acordo com os pesquisadores, essa taxa de infecção é até conservadora, uma vez que o material havia sido lavado antes de ser analisado. No caso dos cemitérios da Praça XV e dos Pretos Novos, o grupo da Fiocruz teve de trabalhar com o material coletado em operações de salvamento arqueológico, parte encontrada durante as obras de revitalização da zona portuária da cidade, enquanto na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a antiga Sé do Rio, as amostras foram analisadas no próprio local em que foram encontradas durante a restauração do prédio em 2007. “Fizemos a coleta com foco na pesquisa genética”, conta Alena. Depois de estudados, os ossos foram reenterrados.
Na Igreja Nossa Senhora do Carmo, onde entre os séculos XVII e XIX eram sepultados os mortos das famílias abastadas, em geral de origem europeia, a taxa de infecção foi de apenas 12%. Apesar de mais baixo, o número surpreendeu os pesquisadores. “A variedade de parasitas encontrada ali é igual à observada na Praça XV”, diz Alena. “Isso mostra que todos, ricos e pobres, estavam expostos ao mesmo ambiente e aos mesmos riscos.”
© LÉO RAMOS
Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Doença de europeu
No caso da tuberculose, porém, os pesquisadores encontraram um padrão oposto ao das verminoses. A doença pulmonar causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis era bem mais comum entre as pessoas mais ricas do que entre as pobres. A farmacêutica Lauren Jaeger, aluna de doutorado de Alena, e o restante da equipe identificaram material genético da bactéria da tuberculose nos restos humanos de 17 dos 32 indivíduos (quase todos descendentes de europeus) encontrados na Igreja Nossa Senhora do Carmo e identificados pela equipe do arqueólogo Ondemar Dias, do Instituto de Arqueologia Brasileira. Já entre os negros enterrados no Cemitério dos Pretos Novos a taxa de infecção por tuberculose foi de 25%, segundo estudo feito em parceria com a paleopatologista Sheila de Souza, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz.

Na opinião dos pesquisadores, a frequência maior de tuberculose entre os descendentes de europeus condiz com a situação histórica, já que naquele período a prevalência da enfermidade era alta na Europa. “Os europeus exerceram um papel importante na disseminação dessa doença no Novo Mundo”, conta Alena.
Embora não se possa negar a influência europeia no espalhamento da tuberculose, a análise dos restos mortais dos escravos enterrados no Cemitério dos Pretos Novos está levando os pesquisadores a repensar uma crença antiga: a de que a África era um continente livre da enfermidade e que os escravos trazidos para o Brasil só se infectaram aqui.
Morte ao chegar
Redescoberto em 1996 durante a reforma de uma casa no bairro da Gamboa, quando operários abriram sondagens para fazer o alicerce e encontraram milhares de dentes e fragmentos de ossos humanos, o Cemitério dos Pretos Novos recebeu de 1769 a 1830 os negros que morriam durante a longa travessia do Atlântico ou logo depois de aportar no país. Nesse cemitério, os corpos eram atirados em valas comuns, pouco profundas. Muitas vezes eram macerados com tocos de madeira, o que torna a identificação dos esqueletos difícil – uma análise do material realizada pela equipe do bioantropólogo Ricardo Ventura Santos sugere que a maioria dos ossos encontrados ali era de homens que morreram quando tinham entre 18 e 25 anos de idade (ver Pesquisa FAPESP nº 190).

“Como esses escravos nem saíam do porto, só podem ter vindo infectados”, diz Sheila, coautora do estudo publicado na Emerging Infectious Diseases. “Essa condição de portadores da bactéria certamente aumentava o risco de essas pessoas adoecerem mais tarde, sob as duras condições de vida que levavam em regime de escravidão.” Até o momento, porém, não é possível saber se o contágio ocorreu no contato com os europeus na África ou mesmo antes, com cepas mais antigas da bactéria que já poderiam circular por lá.
Alena e seu grupo esperam encontrar a resposta para essa dúvida nos próximos anos. Para isso precisam aplicar testes moleculares que permitam comparar o DNA das bactérias encontradas nos restos mortais do Cemitério dos Pretos Novos com as de cepas modernas da doença. “Estamos adaptando algumas técnicas de biologia molecular para trabalhar com o material antigo”, diz Alena. “Além de permitir identificar os parasitas que afetavam aquelas populações, o estudo das sequências de DNA permite fazer uma análise da evolução [desses patógenos] e comparar com bactérias que circulam hoje.”
Artigos científicos
JAEGER, L.H. et al. Mycobacterium tuberculosis complex in remains of 18th–19th century slaves, Brazil. Emerging Infectious Diseases. v. 19, n.5. 5 mai. 2013.
JAEGER, L.H. et al. Paleoparasitological results from XVIII century human remains from Rio de Janeiro, Brazil. Acta Tropica. v. 125, n.3, p. 282-286. mar. 2013.
JAEGER, L.H. et al. Mycobacterium tuberculosis complex detection in human remains: tuberculosis spread since the 17th century in Rio de Janeiro, Brazil.Infection, Genetics and Evolution. v. 12, n.4, p. 642-648. jun. 2012.

Fonte: Revista Fapesp - por Salvador Nogueira e Ricardo Zorzetto/ set 2013