Alunos da Metodista e outras instituições de ensino podem participar
Inscrições vão até 13 de abril de 2017
O Projeto Canudos, projeto de extensão da Universidade Metodista de São Paulo em parceria com o Instituto Brasil Solidário, está com inscrições abertas para as atividades de 2017. São mais de 30 vagas para alunos dos cursos de graduação da Metodista, de outras Instituições de Ensino Superior e para profissionais formados.
As viagens do programa ocorrerão nas datas abaixo:
- Viagem Precursora (recesso de abril) – de 15 a 22 de abril
- Operação Junho/Julho – de 24/06 a 09/07
- Viagem Precursora (recesso de outubro) – de 07 a 14 de outubro
- Natal em Canudos – 16 a 21 de dezembro
A inscrição deve ser feita no site do Projeto até 13 de abril de 2017.
O Instituto Brasil Solidário mantém em Canudos Velho, Bahia, desde 2007 uma base de trabalhos e alojamento compostos por uma vila agrícola sustentável, posto de atendimento médico, odontológico, biblioteca equipada com computadores, padaria, loja de artesanato, além do parque infantil. Anualmente a base/laboratório é utilizada para diversos programas da instituição, e serve ainda como apoio para outros programas e experimentos para projetos ambientais no semiárido brasileiro.
O Projeto Canudos, da Metodista, realiza diversas ações voluntárias com objetivo de melhorar a qualidade de vida e diminuir as diferenças sociais da comunidade. O arraial de Canudos, construído pelo lendário Antônio Conselheiro, recebe os alunos trimestralmente, com duas visitas precursoras às ações (abril e outubro) e as operações que ocorrem em meses de férias (janeiro e julho). A Metodista organiza equipes multidisciplinares para execução das ações, reunindo alunos e professores das áreas de biológicas e saúde, educação, exatas, gestão ambiental, tecnologia, humanas e comunicação.
Em 2010, o psicólogo André Constantino Miguel decidiu tentar algo ousado. Aprovado na seleção para o doutorado, propôs à equipe que começava a integrar na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) a avaliação de uma técnica motivacional da psicologia que ainda não havia sido testada no Brasil nem em dependentes de crack. Ele retornava de dois anos de estudos na Itália, onde havia trabalhado com dependentes de heroína, e não se conformava com o fato de que essa estratégia – o manejo de contingências, útil para reduzir a dependência de álcool, tabaco e cocaína, segundo estudos feitos no exterior – ainda não fosse usada por aqui. Neste ano, ele concluiu sua missão ao publicar na revista Psychology of Addictive Behaviors os resultados do primeiro estudo avaliando o uso do manejo de contingências para auxiliar o tratamento da dependência do crack.
Apenas mais recentemente adotado no tratamento da dependência de drogas, possivelmente por sua natureza polêmica, o manejo de contingências consiste em oferecer uma recompensa sempre que uma pessoa exibe um comportamento considerado desejável.
Essa estratégia, que pode ser usada em várias outras situações, foi desenvolvida a partir do trabalho do psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner. Em experimentos com animais de laboratório, ele havia demonstrado que a consequência de uma determinada ação pode moldar um comportamento. Por exemplo, ratos que recebiam comida (consequência) ao apertar uma alavanca (ação) tendiam a repetir esse ato. Nos anos 1960, outros psicólogos adaptaram o manejo de contingências a tratamentos de dependência química, nos quais a meta a ser conquistada costuma ser a abstinência ou a adesão ao tratamento.
O dependente que consegue passar um período sem consumir a droga que o escraviza recebe um incentivo, em geral financeiro. Por ficar de cara limpa, é remunerado com vale-compras, ingressos para shows, cinema ou teatro e até dinheiro. É uma maneira simples de estimular uma pessoa a repetir um comportamento.
Atenção especializada: dependentes de crack em ala de desintoxicação…
Miguel encontrou uma oportunidade de medir a eficácia do manejo de contingências no dia a dia dos dependentes de crack, a cocaína fumada, ao ser convidado a atuar no ambulatório médico de especialidades (AME) psiquiátricas da Vila Maria, na zona norte de São Paulo. Até então, a técnica havia sido adotada em tratamentos experimentais para aumentar a participação ou a permanência em terapias para obesidade e diabetes ou no tratamento da dependência de heroína, álcool, tabaco e cocaína aspirada, mas não crack.
De agosto de 2012 a julho de 2014, Miguel e outros especialistas convidaram 65 dependentes de crack encaminhados para tratamento no AME-Vila Maria a participar de um experimento. Selecionados de modo aleatório, 32 receberam por 12 semanas o tratamento padrão do ambulatório. Cada participante tinha direito a uma consulta individual por semana com um clínico-geral, psicólogo, psiquiatra, terapeuta ocupacional ou enfermeiro e poderia participar de atividades em grupo para prevenir recaídas. Essas pessoas integraram o chamado grupo de controle e eram encorajadas a coletar uma amostra de urina às segundas, quartas e sextas e entregá-la para os pesquisadores submeterem a testes que indicam a presença de metabólitos da cocaína ou da maconha.
“Toda vez que o participante submetia um exame negativo para cocaína ou crack, sua abstinência era valorizada”, conta Miguel. “Se o resultado indicava o consumo da droga, o grupo elogiava a adesão ao tratamento e o encorajava a tentar ficar abstinente.”
Os demais 33 integraram o grupo experimental, ao qual, além do tratamento padrão, foi aplicado o manejo de contingências. Eles tinham de ir ao AME-Vila Maria três vezes por semana para realizar os testes de urina para cocaína e maconha e passar pelo bafômetro para avaliar o uso de álcool.
Toda vez que entregavam uma amostra de urina livre de cocaína recebiam uma recompensa na forma de vale-compras. Os valores começavam em R$ 5, para o primeiro exame negativo, e aumentavam R$ 2 para cada teste subsequente em que não fosse identificado consumo da droga, até chegar ao máximo de R$ 15 por exame. Mais R$ 2 eram acrescentados se, além de abstinente de cocaína, o usuário também não tivesse consumido bebidas alcoólicas. Quem apresentava os três exames semanais negativos para cocaína recebia R$ 20 de bônus. Também havia uma premiação no valor de R$ 10 se os três testes de urina da semana não indicassem uso de maconha. Desse modo, quem permanecesse as 12 semanas completamente limpo recebia um total de R$ 942.
Se houvesse uma recaída – e elas são comuns no tratamento das dependências químicas –, o participante não perdia o dinheiro acumulado. Em vez disso, deixava de receber no momento do teste positivo e o valor retornava aos R$ 5 iniciais no próximo exame negativo.
Das 33 pessoas do grupo dos vale-compras, 7 (21,2%) ficaram as 12 semanas sem usar crack, relatam os pesquisadores na Psychology of Addictive Behaviors. Ninguém do grupo de controle se manteve abstinente durante todo o estudo – só uma (3%) permaneceu oito semanas sem consumir crack, enquanto 9 (27%) das que receberam o estímulo financeiro passaram dois meses abstêmias. Quem ganhou vale-compras, de modo geral, também consumiu menos álcool e maconha.
“À medida que conseguiam manter a abstinência e concordavam em acumular os prêmios para receber valores mais altos, alguns participantes usavam os vales para comprar cesta básica para a mãe ou presente para o filho”, lembra Miguel.
Consumidores e vendedores de crack na alameda Dino Bueno, no centro de São Paulo, onde as pedras são compradas por valores que variam de R$ 5 a R$ 10
Segundo a psicóloga Clarice Madruga, professora da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Unifesp e coautora do estudo, a aceitação de acumular os prêmios com o prolongamento da abstinência indica que essas pessoas começaram a suportar o adiamento da gratificação, perdido com a dependência. “O consumo de crack e outras drogas proporciona uma recompensa imediata, que pode ser uma sensação passageira de bem-estar ou alívio, à qual o corpo se habitua”, explica. “É preciso um novo condicionamento para estender o prazo de gratificação.”
Seis meses após o fim do experimento, os pesquisadores ofereceram às pessoas do grupo de controle a possibilidade de serem submetidas ao manejo de contingências. Outra vez, cerca de 20% concluíram o tratamento sem consumir crack.
Ainda que só uma proporção pequena tenha conseguido ficar sem crack, Miguel lembra que isso foi possível em uma situação de vida real, com exposição a riscos, diferente da que ocorre nas internações. “Essas pessoas conseguiram isso mesmo estando no olho do furacão, com a pedra ao lado”, ressalta o pesquisador, que desenvolveu o trabalho sob a orientação do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, especialista no tratamento da dependência de álcool e drogas e professor na Unifesp.
A eficácia do manejo de contingências em diferentes estágios do tratamento da dependência é hoje reconhecida pelo Instituto Nacional de Abuso de Drogas (Nida) dos Estados Unidos, um dos principais centros internacionais de estudos sobre abuso de substâncias, que recomenda seu uso. “Recentemente estive em uma reunião no Nida e ninguém mais questiona a efetividade da técnica, adotada em mais de 60% dos serviços norte-americanos de tratamento da dependência de álcool e drogas”, conta Laranjeira. “O debate atual é como implementá-la de modo adequado.”
Oficina de culinária ajuda a criar vínculos com quem ainda não se trata e a capacitar os abstinentes na Unidade Helvétia do programa Recomeço
O manejo de contingências não é, por si só, um tratamento. Está mais para uma ferramenta psicológica destinada a estimular a adoção de comportamentos saudáveis ou desejáveis. “Essa técnica poderia ser implantada desde as ruas até as internações”, afirma Laranjeira, que coordena o Recomeço, programa de enfrentamento ao crack e outras drogas criado em 2013 pelo governo do estado de São Paulo. “Espero que, em breve, possamos ver isso acontecendo na Cracolândia.”
A espiral do vício Cracolândia é o nome pelo qual se tornou conhecida uma área de uns poucos quarteirões no bairro dos Campos Elíseos, região central de São Paulo. Ali, um público que varia de 600 a mil pessoas, dependendo da hora do dia, fuma pedras de crack pelas ruas – compradas lá mesmo por algo entre R$ 5 e R$ 10. Sujas e com roupas rasgadas, elas caminham muitas vezes descalças, com os pés machucados e feridas pelo corpo que não cicatrizam (analgésicos misturados à droga as impedem de sentir a dor).
A redução da imunidade, consequência do uso continuado da cocaína, explica o número elevado de casos de tuberculose entre essas pessoas. Já a prostituição e a prática de sexo inseguro em troca de algumas pedras elevam a frequência de doenças sexualmente transmissíveis, como sífilis e Aids, bem mais comum entre os frequentadores da Cracolândia do que no resto da população.
Foi nessa região que o crack surgiu no Brasil no final dos anos 1980, antes de se espalhar pelo país. Tanto a cocaína aspirada (em pó) como a fumada (crack) agem de modo semelhante no cérebro: suas moléculas, de modo indireto, aumentam a concentração do neurotransmissor dopamina nas áreas ligadas à motivação e à recompensa. O resultado é uma sensação de extrema euforia e bem-estar, que, no entanto, é fugaz.
Realizados duas vezes por dia, os ensaios da bateria Coração Valente, do programa Recomeço, inserem ritmo e organização no dia a dia dos dependentes
Uma das principais diferenças entre a cocaína aspirada e a fumada está na velocidade de absorção, que influencia a rapidez com que a droga chega ao cérebro e o tempo que permanecerá ativa, fatores determinantes para o poder de gerar dependência. Ao cheirar uma carreira de coca, a droga é absorvida lentamente pela mucosa nasal, entra na corrente sanguínea e é parcialmente processada pelo fígado antes de alcançar o cérebro. Passam-se alguns minutos até começarem os efeitos, que podem durar mais de meia hora. Já com o crack, tudo é mais rápido e intenso. Tão logo a fumaça chega aos pulmões, a droga passa para o sangue e é levada para o cérebro em concentrações mais elevadas. O efeito é quase imediato: há uma explosão de prazer e euforia, que desaparece em minutos e leva a uma depressão intensa. Aí começam os problemas.
Em busca da sensação de bem-estar, fuma-se outra pedra. Com o tempo, as células cerebrais tentam alcançar o reequilíbrio reduzindo a quantidade de dopamina disponível. Então, torna-se necessário fumar mais para obter o mesmo resultado. Com o consumo contínuo, a cocaína passa a ser necessária para manter os níveis de dopamina a que o organismo se habituou. Sem a droga, surgem sintomas desagradáveis: agitação, ansiedade, dificuldade de concentração, explosões de raiva e depressão. Nesse ponto, fuma-se não mais pelo prazer, mas para evitar o sofrimento.
Jovens, pretos e pobres Um levantamento nacional sobre o consumo de drogas, feito em 2012 sob a coordenação de Clarice Madruga e Ronaldo Laranjeira, estimou que 1,5% dos brasileiros com mais de 14 anos (quase 2,2 milhões de pessoas) havia consumido crack ao menos uma vez na vida. Uma proporção menor (0,8% ou 1,2 milhão de brasileiros) tinha usado a droga no ano anterior à pesquisa, um indicador de consumo atual. Esse dado torna o Brasil um dos países com maior número de consumidores no mundo. Nos Estados Unidos, onde a cocaína e o crack vêm sendo substituídos por drogas sintéticas, os usuários atuais somam 0,3% da população maior de 12 anos, totalizando 8 milhões.
Também em 2012 o psiquiatra Francisco Inácio Bastos e a estatística Neilane Bertoni, ambos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, traçaram o perfil dos usuários de crack. Os pesquisadores foram às cracolândias e entrevistaram, em todos os estados brasileiros, 7,3 mil pessoas que faziam uso frequente de crack. Eles verificaram que as cracolândias são ocupadas por jovens pretos e pobres: 78% eram homens, 85% tinham entre 18 e 40 anos, 80% eram pretos ou pardos e 58% só haviam estudado até a 8a série do ensino fundamental. Quatro de cada 10 moravam nas ruas, 65% trabalhavam por conta própria, 10% cometiam furtos ou roubos e 7% se prostituíam para conseguir a droga, que consumiam havia bastante tempo (6,5 anos, em média) e em grandes quantidades (13 pedras por dia).
No programa De Braços Abertos, as oficinas de pintura, costura e conserto de bicicletas servem de espaço para aprendizagem profissional em que os participantes recebem cerca de R$ 15 por dia de trabalho
Na cidade de São Paulo, dois programas – o Recomeço, do governo estadual, e o De Braços Abertos, da prefeitura – tentam auxiliar os usuários a abandonar o consumo de crack. Criado em 2013, o programa estadual inaugurou em meados do ano seguinte a Unidade Recomeço Helvétia, um dos pilares de sua atuação, onde os pesquisadores pretendem adotar em breve o manejo de contingências. Instalada em um prédio de 11 andares no número 55 da alameda Helvétia, essa unidade oferece aos usuários acesso a um centro de convivência, no qual é possível tomar banho, cortar os cabelos, receber cuidados especiais para os pés machucados, fazer ginástica e participar de grupos terapêuticos de culinária e música. Em dois dos andares funciona uma enfermaria de desintoxicação com 21 leitos, destinada às pessoas que aceitam passar um período internadas para tentar se afastar do crack. Quem já superou essa fase tem a chance de tentar uma das 30 vagas para passar uma temporada nos apartamentos da moradia monitorada, situados no mesmo prédio, nos quais a única exigência é manter-se abstêmio. Esse sistema de acompanhamento segue um modelo já adotado na Inglaterra e nos Estados Unidos e tem como meta iniciar o processo de reinserção social para que essas pessoas consigam uma renda e um lugar para viver fora da região.
Antes de chegar à Unidade Helvétia, as pessoas da Cracolândia que aceitam o tratamento são encaminhadas para o Centro de Referência de Tabaco, Álcool e Outras Drogas (Cratod), em frente ao Parque da Luz, a uns 900 metros dali. Por ser um centro de atenção psicossocial de alta complexidade em álcool e drogas, o Cratod oferece a participação em grupos terapêuticos, atendimento odontológico, encaminhamento para comunidades terapêuticas e internação. De abril a junho deste ano, o Cratod atendeu cerca de 2,6 mil usuários de crack, encaminhados para diferentes tipos de tratamento: 42% para atendimento ambulatorial; 14% para comunidades terapêuticas; e 39% para internação para a desintoxicação. “O esforço de nossos serviços é ajudar o paciente a atravessar os primeiros 90 dias de abstinência”, conta o psiquiatra Marcelo Ribeiro, professor da Unifesp e diretor técnico do Cratod.
Comida e abrigo Na rua Helvétia, em frente ao prédio do Recomeço, funciona uma das unidades do programa De Braços Abertos, criado no início de 2014 pela Prefeitura de São Paulo. Sob uma ampla cobertura metálica instalada em um terreno do município, os usuários de crack têm acesso a banheiro, alimentação e um espaço para descansar. É uma espécie de porta de entrada de um serviço pensado exclusivamente sob o princípio da redução de danos, que nada exige em troca de quem aceita participar, nem mesmo a abstinência. “O que embasa a redução de danos é a constatação de que boa parte das pessoas que têm problemas com drogas não consegue ficar abstinente”, afirma o psiquiatra Leon Garcia, médico do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP) e um dos coordenadores da área da saúde do programa De Braços Abertos.
No tratamento da dependência química, a estratégia de redução de danos consiste em substituir aos poucos o uso de droga muito nociva por outra menos danosa. Para o crack, porém, não há um substituto eficiente. Por essa razão, segundo Garcia, o De Braços Abertos apostou em oferecer alimentação, segurança e abrigo para ajudar os dependentes a sair do mundo das drogas – o programa Recomeço, por sua vez, adota a redução de danos para evitar a gravidez indesejada, oferecendo implantes de anticoncepcionais.
“A exclusão social e a miséria precedem o uso do crack”, explica o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, também professor da Unifesp, onde há 30 anos coordena um programa de tratamento de dependência química. Considerado um dos introdutores da redução de danos no país, Silveira participou da formulação inicial do De Braços Abertos. “Na Cracolândia, a droga é consequência, e não a causa do problema”, afirma.
Cerca de 500 pessoas atualmente participam – há outras 200 na fila – do programa municipal, que, além de alimentação, moradia e trabalho remunerado, oferece também oficinas de capacitação. Recentemente, a equipe do De Braços Abertos concluiu um levantamento no qual avaliou o padrão do uso de drogas. Os dados indicam que, depois de seis meses a um ano no programa, 88% dos participantes tinham reduzido o consumo de crack, 85% tinham diminuído o de outras drogas e 83% haviam iniciado o tratamento para outros problemas de saúde, como sífilis e tuberculose, frequentes por ali. Cerca de metade também tinha retomado o contato com familiares. “Quando entraram para o programa, 14% das pessoas usavam de 80 a 100 pedras de crack por semana, hoje essa proporção é de 2%, já o número que consumia de 1 a 10 pedras passou de 22% para 47%”, conta a psicóloga Maria Angélica Comis, assessora de política de drogas do município e membro da coordenação do De Braços Abertos.
Aparentemente, nenhuma estratégia alcança índices elevados de sucesso, em especial se aplicada sozinha. Durante a avaliação do manejo de contingências, o próprio André Miguel constatou que a técnica não funcionava para todos. “Cerca de 30% das pessoas que recebiam esse tipo de intervenção nunca entregaram uma amostra de urina livre de cocaína”, conta.
Seus efeitos também parecem ter uma duração limitada. Estudos de meta-análise (que combinam os dados de várias pesquisas) do manejo de contingências para tratar a dependência de cocaína sugerem que três meses após o fim do tratamento 67% das pessoas voltam a consumir a droga. Uma forma de prolongar a abstinência seria aumentar a duração do manejo de contingências, que, além de usado para induzir a abstinência, pode ser adotado para estimular a reconexão com a família e a adesão ao tratamento, como já é feito no Canadá com os dependentes de heroína. “A fase inicial da saída de uma dependência pode gerar muita frustração, porque há muitos danos a serem reparados”, conta Clarice Madruga.
Quem investiga dependência química e formas de combatê-la sabe que, de modo geral, o tratamento exige a adoção de múltiplas abordagens para ser eficaz e produzir efeitos duradouros. “No mundo ideal, deveriam ser usadas várias estratégias”, explica o psiquiatra Frederico Duarte Garcia, coordenador do Centro de Referência em Drogas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Inicialmente, é preciso estabelecer um vínculo com o dependente e motivá-lo a entrar na cadeia de tratamento.” O tratamento pode incluir medidas que vão da redução de danos à internação, além da participação em grupos como os dos alcoólicos anônimos (AAs) e narcóticos anônimos (NAs). “O objetivo”, diz o pesquisador da UFMG, “deve ser reestruturar a vida do indivíduo entre uma recaída e outra e promover a sua reinserção na sociedade”.
Projetos 1. Avaliação de eficácia do manejo de contingências no tratamento ambulatorial padrão para indivíduos com diagnóstico de dependência por crack (nº 2013/04138-7); Modalidade Bolsa no Brasil – Doutorado Direto; Beneficiário André de Queiroz Constantino Miguel; Pesquisador responsável Ronaldo Ramos Laranjeira (Unifesp); Investimento R$ 93.378,54. 2. Avaliação de eficácia do manejo de contingências no tratamento ambulatorial padrão para indivíduos com diagnóstico de dependência por crack (nº 2011/01469-7); Modalidade à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Ronaldo Ramos Laranjeira (Unifesp); Investimento R$ 80.870,99.
Com um modo de vida semiaquático, o ratão-do-banhado existe desde o estado de São Paulo até o sul
Quem pensa que ratos não passam de bichos asquerosos de cauda pelada que rondam os esgotos nunca viu um rato-do-cacau, da espécie Callistomys pictus. Com seu nome que significa, em latim, “rato mais bonito”, o roedor que pesa por volta de meio quilograma (kg) tem pelagem longa e macia entre o branco e o prateado com uma mancha preta que percorre as costas. Apenas um grupo muito seleto de pessoas já viu esse animal que vive no alto das árvores na região cacaueira de Ilhéus no sul da Bahia, uma distribuição restrita que garante à espécie o status de ameaçada de extinção na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês): apenas 13 indivíduos já foram registrados por zoólogos. A versão mais recente da árvore genealógica (filogenia) dessa família de roedores indicou que seus parentes mais próximos são os ratões-do-banhado (Myocastor coypus), uma revelação curiosa que ressalta ainda mais o desconhecimento sobre esses animais. “As duas espécies são completamente diferentes em aparência, hábito e distribuição geográfica”, afirma o zoólogo Yuri Leite, professor na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e um dos autores do artigo publicado no final de dezembro no site da revista Molecular Biology and Evolution.
Leite, que há mais de 20 anos persiste em um trabalho de detetive para capturar ratos da família Echimyidae, ou equimídeos, e entender as relações entre as espécies, considera surpreendente o parentesco entre animais tão diferentes quanto o rato-do-cacau e o ratão-do-banhado. Mesmo assim, não foi uma novidade para ele, que já publicara a mesma conclusão em 2014 na revista Natureza on line, como parte do trabalho de doutorado de sua aluna Ana Carolina Loss. Naquele momento, o próprio título do artigo denotava uma certa incredulidade (“Relações filogenéticas inesperadas do rato-do-cacau Callistomys pictus”). “Poderia ser um viés de amostragem, porque tínhamos uma quantidade limitada de dados”, reconhece, “mas agora não”. Apesar de já ter feito muito trabalho de campo em busca de roedores praticamente pelo Brasil inteiro, ele mesmo nunca viu um rato-do-cacau.
O trabalho de 2014 conava com 14 gêneros de equimídeos, dos quais foram analisados quatro trechos do genoma. O estudo mais recente, liderado pelo evolucionista francês Pierre-Henri Fabre, professor na Universidade de Montpellier, abrange todos os 26 gêneros da família por meio de material genético extraído de espécimes depositados em nove museus zoológicos de vários países (entre eles, uma amostra de tecido de rato-do-cacau da coleção da Ufes). A partir desse material, técnicas mais recentes de sequenciamento agora permitiram construir árvores filogenéticas levando em conta 18 genes diferentes, a amostragem mais completa já realizada para esses animais.
Um dos problemas das árvores anteriores é incluir características ósseas, que aparentemente não revelam com precisão a trajetória evolutiva. A ideia sempre foi que semelhanças são consequência de parentesco, mas o princípio não vale para toda a anatomia. Leite conta que os dentes, por exemplo, são muito variáveis (talvez como adaptação à alimentação) e semelhantes entre animais que agora aparecem muito distantes na filogenia. O resultado mostrou que os equimídeos arborícolas são em grande parte parentes entre si e formam um ramo na árvore filogenética (ver infográfico). O mesmo vale para os terrestres, agrupados em três conjuntos. Em um deles surgiram, entre 6 milhões e 12 milhões de anos atrás, dois gêneros semifossoriais (Clyomys e Euryzygomatomys), que passam boa parte de seu tempo debaixo da terra.
Outro roedor com esse modo de vida é o rato-de-espinho Carterodon sulcidens, um animal raro que vive em galerias subterrâneas em áreas de Cerrado, no Brasil Central. Apesar dos avanços obtidos pelo estudo, sua identidade continua incerta e ele não parece ser aparentado com equimídeos semifossoriais, com quem é muito parecido. “Há algo de estranho na evolução molecular desse animal, não podemos nem dizer com certeza que seja um equimídeo”, avalia Leite. “Algumas análises o colocam como mais próximo das hutias, integrantes de outra família de roedores endêmica do Caribe, algo realmente inesperado em termos morfológicos e biogeográficos”, conta. Fabre também ressalta a velocidade com que o material genético sofre mutações, a taxa de evolução molecular, que considera excepcional a ponto de driblar os métodos de análise utilizados. “Vamos tentar com mais genes e dados genômicos no futuro”, planeja.
Rato-do-cacau é o parente mais próximo do ratão-do-banhado
Máquina do tempo
Uma contribuição da análise feita agora, além de apontar os parentescos de uma maneira mais precisa do que já tinha sido possível, foi testar hipóteses sobre quais fatores levaram à diversificação dessa família de roedores. O mecanismo mais invocado para explicar efeitos geográficos na evolução costuma ser a vicariância, em que barreiras como montanhas ou oceanos surgem impedindo o trânsito de organismos e isolando espécies em subconjuntos que passam a evoluir separadamente. Mas o estudo recém-publicado aponta para a dispersão como evento mais comum, situações nas quais o trânsito de animais passa a ser possível. Não é possível voltar ao passado para ter certeza de como aconteceu, mas modelos estatísticos permitem combinar o parentesco entre as espécies, sua localização e a idade das linhagens e sugerir o cenário mais provável. “Se em um grupo todas as espécies aparecem na Mata Atlântica, o ancestral deve ter vivido nessa floresta”, exemplifica Fabre. “Mas se o grupo mais próximo dessas espécies atlânticas é amazônico, pode ter havido um exemplo de separação entre a Mata Atlântica e a Amazônia.” É uma simplificação. A partir daí, outros fatores são levados em conta para tentar diferenciar entre separações e junções em tempos distantes. “Graças a modelos geológicos e de dispersão, testamos as hipóteses de vicariância e dispersão”, explica o francês.
Um caso marcante é justamente o pareamento improvável entre o rato-do-cacau e o ratão-do-banhado. Fabre confessa que, apesar de sugestões no passado de que havia semelhanças entre os dentes e o número de cromossomos das duas espécies, foi uma surpresa encontrá-los juntos na árvore, com um apoio estatístico convincente. A linhagem que deu origem aos dois gêneros é antiga e teria se bifurcado, de acordo com as análises, por volta de 10 milhões de anos atrás, enquanto a cordilheira dos Andes se soerguia e quando surgiram grandes zonas alagadas em florestas, como o mar do Paraná. “Essas incursões aquáticas podem ter estimulado adaptações que levaram tanto ao hábito arborícola como ao semiaquático”, propõe Leite. Subir nas árvores ou nadar são duas saídas possíveis para sobreviver nas mesmas condições.
O rato-de-espinho tem posição incerta na genealogia
As análises biogeográficas também corroboram resultados anteriores que indicavam um papel importante da elevação da cordilheira dos Andes e de conexões entre a Amazônia e a Mata Atlântica na diversificação desses animais, em diferentes momentos do passado. Para Leite, a nova árvore filogenética pode servir para gerar outras perguntas ecológicas ou evolutivas. Por que um determinado grupo evoluiu da maneira que se observa? O que torna o rato-do-cacau raro? A região onde eles vivem, no sul da Bahia, tem um alto grau de endemismo, com espécies que existem apenas lá. “Queremos investigar o que aconteceu com alterações no nível do mar e expansão da floresta para possibilitar a diversificação de roedores”, sugere Leite, um especialista em encontrar e capturar até mesmo ratos praticamente inacessíveis, que nunca descem do alto de árvores nas quais circulam apenas à noite. Ele já descreveu diversas espécies da família.
Fabre, que há anos se dedica a esses animais rodeados de mistério, ressalta seus encantos. “Temos poucos dados e é um dos grupos mais interessantes da América do Sul, visto que são diversificados do ponto de vista ecológico, morfológico e taxonômico”, afirma, destacando que restam muitas espécies a descrever e que se sabe pouco sobre as já registradas pela ciência.
Exoesqueleto robótico flexível auxilia indivíduos a caminharem produzindo menos força na articulação dos tornozelos
Um exoesqueleto robótico flexível concebido por um grupo internacional de pesquisadores, entre eles a fisioterapeuta Denise Martineli Rossi, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), obteve bons resultados em testes, auxiliando indivíduos a caminharem gastando menos energia e produzindo menos força na articulação dos tornozelos e do quadril.
O exoesqueleto está sendo desenvolvido tanto para fins militares como para pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC). A ideia é aumentar a capacidade de locomoção do indivíduo fazendo com que se desloque com mais eficiência, gastando menos energia e produzindo menos força nas articulações, mesmo quando estiverem carregando equipamentos pesados, como mochilas, no caso dos soldados. Mas também poderá beneficiar idosos ou pessoas com mobilidade reduzida a caminharem com mais confiança e velocidade, dispensando o uso de andadores ou muletas.
O equipamento assemelha-se a uma vestimenta, diferentemente dos exoesqueletos mais conhecidos, em geral pesados e dotados de armações metálicas e articuladas revestindo indivíduos da cabeça aos pés. Consiste em uma cinta têxtil presa à cintura com correias que se estendem ao longo das pernas e que se prendem a uma tornozeleira, pela qual passam cabos fixados atrás do calçado. Conectados a pequenos motores, esses cabos funcionam como músculos, auxiliando a pessoa a movimentar o tornozelo e o quadril nos momentos em que mais gastamos energia durante uma caminhada.
Em testes descritos em um estudo publicado na capa da edição de janeiro da revista Science Robotics, sete homens saudáveis, com idade média de 26 anos, vestiram o exoesqueleto e caminharam em uma esteira a uma velocidade de 1,5 metros por segundo no laboratório da Harvard Medical School, em Massachusetts, nos Estados Unidos. “Analisamos a variação da assistência fornecida pelo equipamento e o consumo energético dos indivíduos durante a marcha”, explica Denise.
Por meio de sensores posicionados no pé e na coxa dos participantes, os pesquisadores determinam em tempo real a velocidade da marcha e o tamanho de suas passadas, bem como a força fornecida pelo equipamento no tornozelo de cada um a fim de fornecer a assistência no momento adequado do ciclo da marcha. Verificaram que, com o aumento da assistência oferecida pelo exoesqueleto, houve uma redução da força biológica produzida principalmente pelos tornozelos dos voluntários. Consequentemente, explica Denise, o custo metabólico associado à marcha foi reduzido continuamente à medida que os pesquisadores aumentavam o auxílio oferecido pelo exoesqueleto.
Segundo Denise, com base nesses resultados, eles pretendem aprimorar o equipamento para que ele consiga, de modo autônomo, determinar o grau de assistência oferecida pelo exoesqueleto segundo as necessidades físicas de cada indivíduo ou com as características do terreno pelo qual ele está se deslocando.
Projeto
Estudo da discinese escapular por análise de componentes principais aplicada aos dados de cinemática tridimensional escapulotorácica (nº 14/09485-0);ModalidadeBolsa de Doutorado;Pesquisadora responsávelAnamaria Siriani de Oliveira (USP);BolsistaDenise Martineli Rossi; Investimento R$ 136.448,89.
Título do projeto: Centro de Excelência para Descoberta de Alvos Moleculares
Unidade/Instituição: Instituto Butantan
Data limite para inscrições:28/02/2017
Título do projeto: Vias de sinalização envolvidas na resposta inflamatória em modelos de cultura 3D de osteoartrite.
O
Centro de Excelência para Descoberta de Alvos Moleculares, uma nova
parceria entre FAPESP, Glaxo-Smith Kline e Instituto Butantan, tem uma
posição de Pós-Doutorado disponível no Laboratório de Imunoquímica do
Instituto Butantan, São Paulo, Brasil.
O
pós-doutorando terá a oportunidade de trabalhar em um projeto sobre a
identificação/elucidação e a validação de novos alvos/vias envolvidos na
osteoartrite, utilizando como ferramentas toxinas de venenos de animais
peçonhentos.
Como
requisitos, os candidatos devem ter doutorado em Imunologia, pelo menos
três artigos como primeiro autor em revistas internacionais, motivação
para resolver problemas biológicos complexos no campo da descoberta de
alvos moleculares, motivação para trabalhar produtivamente em um
ambiente interdisciplinar e fluência em inglês com boa habilidade de
escrita.
Experiência
comprovada em culturas 3-D e em técnicas imunológicas, incluindo
citometria de fluxo multicolor, é necessária. Experiência em microscopia
confocal, ressonância plasmônica de superfície, biologia molecular e
bioinformática é também desejada.
Os
candidatos interessados devem apresentar seus pedidos incluindo: carta
de apresentação descrevendo realizações de pesquisa, curriculum vitae e
duas cartas de recomendação.
Esta
oportunidade está aberta a candidatos de todas as nacionalidades. O
candidato selecionado receberá bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP e um fundo de contingência de pesquisa,
equivalente a 15% do valor anual da bolsa e que deve ser gasto em itens
diretamente relacionados às atividades de pesquisa.
Células tronco neurais infectadas com ZikV isolado no Brasil. Azul: núcleos celulares. Verde: Nestina. Laranja: Zika vírus
Quando invade o cérebro, o vírus zika ocasiona alterações no funcionamento da maquinaria genética de maneira que as células nervosas deixam de se dividir e se diferenciar nos vários tipos que compõem o órgão responsável por comandar o funcionamento do corpo. Além disso, também ativam genes que ajudam o próprio vírus a se replicar. Dito assim pode parecer quase óbvio, mas chegar a essas conclusões envolveu uma conjunção de especialistas de diversas instituições brasileiras trabalhando com os mais atuais modelos e técnicas, como mostra artigo publicado em 23 de janeiro na revistaScientific Reports.
“Podemos investigar a ação do vírus em modelos com complexidade celular crescente”, conta o neurocientista Erick Loiola, pesquisador em pós-doutorado no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), no Rio de Janeiro, e um dos autores do trabalho. Ele se refere ao cultivo bidimensional de células nervosas em placas, aos aglomerados de células conhecidos como neuroesferas e aos minicérebros, ou organoides cerebrais. Estes últimos são estruturas mais complexas que reproduzem características de um cérebro um pouco mais desenvolvido, como o de um feto aos 3 meses de gestação. Loiola faz parte do grupo liderado pelo neurocientista Stevens Rehen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor de pesquisa do Idor.
Desde 2009, pesquisadores liderados por Stevens Rehen estabeleceram linhagens de células-tronco de pluripotência induzidas (iPS), que podem gerar uma série de tecidos diferentes a partir de células adultas, na maior parte das vezes retiradas da pele. A partir daí, logo adquiriram a técnica para produzir as versões tridimensionais que servem de modelo para o estudo de vários aspectos do funcionamento e do desenvolvimento do cérebro, como no caso dos distúrbios psiquiátricos há anos estudados por Rehen.
Os minicérebros eram considerados modelos para estudo de microcefalia desde 2013, dois anos antes de o vírus zika ganhar fama mundial pela conexão com o nascimento de bebês com o cérebro menor do que o esperado para a idade gestacional e outros danos neurológicos. E já eram produzidos no Idor, assim como as neuroesferas. Isso pôs o laboratório em posição privilegiada para fazer frente à epidemia e testar os efeitos do vírus. No ano passado, o grupo indicou que as neuroesferas infectadas pela linhagem africana do vírus zika se degradam e que células infectadas têm dificuldade em formar os aglomerados.
Aqui núcleos celulares em amarelo e vírus zika em rosa
DNA manipulado
Agora foi a vez de examinar com maior precisão o que acontece no desenvolvimento das células infectadas pela linhagem viral em circulação no Brasil, isolada de um paciente do Espírito Santo, e do ponto de vista da sala de comando – os genes. Isso foi possível analisando o RNA e seus produtos – as proteínas – encontrados nas células, como indicação da atividade genética. “Analisamos as neuroesferas logo no início de seu desenvolvimento, antes que as células começassem a morrer”, explica a bióloga Juliana Minardi, que faz estágio de pós-doutorado no Laboratório de Neuroproteômica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenado pelo biólogo Daniel Martins-de-Souza.
Eles já trabalhavam em parceria com o Idor em um projeto sobre esquizofrenia, então foi simples aplicar o mesmo modelo à infecção por zika.
A ideia era justamente investigar o que causava a deficiência já observada no desenvolvimento das neuroesferas, quando as células progenitoras se diferenciam em neurônios e células da glia (que formam a estrutura do cérebro). Ao analisar a diferença entre células infectadas e sadias logo nos primeiros dias, eles detectaram alterações na produção de cerca de 500 proteínas – um amplo repertório para causar alterações em uma gama de funções celulares. Depois de identificá-las com base em estudos anteriores, ficou claro que o zika cria um ambiente de instabilidade que turbina a produção de proteínas ligadas ao reparo de DNA. Na prática, porém, essas proteínas acabam inibindo a produção de moléculas associadas à proliferação e à diferenciação das células neurais e replicando o material genético do vírus. O resultado são neuroesferas mais escassas, mirradas e malformadas. “O ambiente promovido pelo vírus nas neuroesferas leva suas células a interromper seu ciclo normal de vida, incluindo sua diferenciação em neurônios”, conclui Martins-de-Souza.
Para os pesquisadores da Unicamp, esse tipo de olhar detalhado pode ajudar a identificar alvos interessantes de medicamentos que já estão em teste para outras doenças, além de outros ainda não descobertos. Um exemplo de drogas já conhecidas é a cloroquina, usada há décadas contra malária, e que em testes com células neurais humanas e neuroesferas de camundongo se mostrou capaz de inibir a proliferação do vírus e a morte de células, de acordo com estudo coordenado pelo virologista Amilcar Tanuri, da UFRJ, em parceria com o grupo de Rehen e publicado em dezembro na revista Viruses. Outra parceria avaliou o antiviral sofosbuvir, normalmente usado contra a hepatite C, que revelou efeito protetor em minicérebros em estudo liderado pelo biólogo Thiago Moreno Souza, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, publicado em 18 de janeiro na Scientific Reports. Loiola, também coautor desse artigo, considera os resultados altamente promissores, embora nem todos os países tenham aprovado o sofosbuvir para uso em grávidas, cujos fetos são as maiores vítimas do risco de microcefalia. “O laboratório está pronto para oferecer os três modelos neurais, que variam em complexidade e velocidade de resposta, para uso como plataforma de teste de drogas”, afirma.
Projeto
Desenvolvimento de um teste preditivo para medicação bem sucedida e compreensão das bases moleculares da esquizofrenia através da proteômica (nº 2013/08711-3);ModalidadeJovens Pesquisadores em Centros Emergentes;Pesquisador responsávelDaniel Martins de Souza (Unicamp);InvestimentoR$ 1.794.423,85.